terça-feira, 10 de março de 2020
sábado, 19 de outubro de 2019
Estados da Reabilitação Subversiva
![]() |
| Artur Pastor - Praça do Cubo |
Caro
Impontual, apreciei bastante este seu testemunho, tanto, ao ponto de me fazer exercitar os
dedos. Portanto,
alavanquei-me nas suas palavras e desenhei a ultima tendência das operações de cosmética
conservação, realizadas nos
edifícios de génese construtiva tradicional e secular, à boa moda da nossa
mentalidade burguesa. E como está na moda o chavão da reabilitação…
A
reabilitação conforme se extrai da essência da sua definição, consiste
na restituição de algo
ao seu antigo estado, habilitando-o de novo. Ou seja, a reabilitação de um
edifício deve ocorrer pela sua conservação / preservação integral, interior e
exterior, considerando o seu valor patrimonial e histórico, independente das
suas características arquitectónicas, mais ou menos ricas, mais ou menos eruditas.
Excluindo esses edifícios exemplares, à partida identificados e protegidos
pelas entidades de tutela competente, a reabilitação tem ocorrido pela conservação
parcial dos demais edifícios antigos, por via da preservação exclusiva do seu
invólucro com relação directa com o espaço publico que se lhe apõe.
Pois
é! Hoje em dia, os edifícios “bonitos”
oferecem sempre um corpo muito apelativo aos olhos de quem nada entende das
disciplinas da arquitectura, da histórica e da cultura. Pobres ou esfomeados, os
ditos são corrompidos com programas funcionais megalómanos,
desproporcionais ao tamanho do seu modelito estrutural, rebentando com as
costuras da urbanidade e da habitabilidade da cidade. Aqui o “dolo” até corre bem para a boa imagem
da paisagem e para a boa passagem do turismo.
E agora?!
Onde está a alma genuína? Onde está o ser? Onde está o sentir? Onde está o seu
conteúdo material e substantivo? Onde ficarão registadas as memórias da
história? No fachadismo privado sobreposto ao interesse público?
Aqui o
dolo é nocivo para o povo, o vulgo cidadão
comum, que vai perdendo a passos largos a sua identidade cultural, a sua cidade,
a sua habitabilidade e o seu contexto na sociedade da cosmética estereotipada
que em busca de lucro faz do lar uma casa deserta.
Portanto,
nesta conjuntura leviana, a beleza casa bem com a ganância, com a FALSA ignorância
e com a inteligência subversiva.
Sabe
Impontual, o Porto transformou-se numa metrópole muito bonita e atractiva ao
olhar do turista, mas não é o meu Porto, o que guardo com saudade na
memória dos meus tempos de menina. A Ribeira foi purgada da sua alma,
remanescendo do seu legado os meninos que ainda desafiam o Rio Douro do tabuleiro
inferior da Ponto D. Luiz I. Mas até hoje, esses ladinos, para além da carolice
vão à disputa da moeda em troca do espectáculo do salto.
Hoje
o Porto é um porto de passagem com muito movimento mas sem a sua gente dentro.
Não há como deixar registo afectivo da sua história na memória da nossa malta
nova.
E
posto isto, caro Impontual, vertendo esta imagem para a beleza da mulher, é um
facto que a sua beleza pode ser estonteante e ao mesmo tempo perigosa se for
indevidamente ousada a seu favor e a seu bem prazer. Mas aí, cabe ao seu
oponente ser dotado de pulso firme e forte para não se deixar ofuscar e imbuir
pelo momento a ponto de perder o norte e o bom senso.
A
beleza só é realmente bonita quando cria *“(…),
seres alma
e sangue e vida em mim”.
*Florbela Espanca, Ser Poeta
em ‘Charneca em Flor’
quinta-feira, 10 de outubro de 2019
fios de gente "ausente"
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| imagem extraída do National Geografic |
poesia
brisa breve de emoção
estados d'alma
desassossego do coração
ausência não faz estória
tão-pouco escreve memórias
nas ermidas da saudade
ausência
cala a voz do silêncio
rouba espaço ao tempo
ganha corpo
declara morte ao momento
ausência desenha ausência
vazios prenhos de solidão
desalento
(in)consciência
pobre folha de papel deserta
caída se vê na teia do esquecimento
quarta-feira, 8 de maio de 2019
sexta-feira, 30 de novembro de 2018
magia matinal
30/11/2018 Cais Capelo Ivens - Marginal Ribeirinha de Vila Nova de Gaia
Sempre
esperei ver-me à mercê da mudez,
não
do encarceramento das palavras,
mas
do emudecimento perante a beleza do momento.
Quero retribuir-me e não consigo,
de me ver assim,
intrincada num redemoinho de profundas emoções.
Hoje, deponho as palavras mais bonitas,
as que tenho guardado debaixo da pele,
nas asas de um Sonho meu.
Sonho
que assim é,
e que assim deve permanecer, intacto,
imaculado
no tempo e no espaço para nunca morrer,
enquanto
memória minha
houver.
quarta-feira, 6 de junho de 2018
* we never be ashamed of our tears, for they are rain upon the blinding dust of earth, overlying our hard hearts
![]() |
| Sakura / Sayaka Maruyama |
Título * Charles Dickens in Great Expectations
da dor
da tristeza
da autenticidade
da pureza
do desassossego
da mão que embala o berço
da fragilidade do ser
que incondicionalmente dá todo o seu bem-querer
o fogo frio trespassa o véu da pele até ao corpo da alma
que nem o fio de uma navalha afiada
da tristeza
da autenticidade
da pureza
do desassossego
da mão que embala o berço
da fragilidade do ser
que incondicionalmente dá todo o seu bem-querer
o fogo frio trespassa o véu da pele até ao corpo da alma
que nem o fio de uma navalha afiada
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018
O Amor precisa de Sexo, já o Sexo não precisa de Amor
![]() |
| Imagem retirada daqui |
Há muito tempo que não dou ares da minha graça, mas o
nosso amigo Impontual aguçou-me a mente e os dedos com a sua publicação, “Quem dera que o amor fosse como o sexo”, pelo que, e em jeito de comentário expresso
aqui a minha opinião sobre esta matéria.
Meu caro Impontual, esta publicação daria pano para
fazer muitas colecções de primavera-verão, na medida que cada sujeito tem a sua
opinião sobre o tema, Amor versus Sexo, e todas elas são válidas. E sabes?
Ainda bem. Cada um é um ser único que sente este dois “afectos”, com implicação comportamental, de modo diferente.
Excluo obviamente deste universo a opinião impositiva
dos Senhores da Sotaina que a favor dos beatos sacramentos obrigam os seus fiéis
depositários ao cumprimento de regras fundamentalistas e utópicas com sabor a
hipocrisia.
Mas adiante.
Ora o Amor precisa de Sexo, já o Sexo não precisa de
Amor. Vivemos numa cultura monogâmica que nos foi incutida desde o berço em
jeito de lavagem cerebral pela Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana. E,
é ao nível cerebral que toda a nossa percepção, sensitiva, emocional e afectiva
é processada, e lá está, o corpo, o coração e razão nem sempre estão em
sintonia perante esta dicotomia, Amor versus Sexo e Monogamia. Daí, o ciúme e o
sentimento de posse tomarem conta da razão como instintos de defesa e de ataque,
que em dose de austeridade desmedida destroem o tal afecto que denominas de
Amor.
Em tempo escrevi que o Amor é um sentimento
maior. Na sua essência é um afecto afectivo altruísta, não é um contrato
comercial ou uma cobrança difícil. O amor não fere nem dói. O Amor é o que de
melhor existe em cada um de nós.
Ora, o Amor consagra, actos, atitudes, posturas e
comportamentos que o ser humano não tem capacidade de garantir na íntegra ainda
que o intente continuadamente. A meu ver sem grande sucesso. E com base neste
meu princípio, digo que o Amor é um afecto etéreo, que só os Deuses têm
capacidade de materializar. Não acredito que exista Um, ou o Deus, mas acredito
nas qualidades extraordinárias de bem-querer que ainda assistem à humanidade que
ficam à margem de qualquer credo religioso.
Agora, o Amor em sentido lato, é um sentimento
maior que existe em todas as coisas com alma dentro, que alavanca e faz mover o
mundo e que confere ao homem a capacidade de se fazer gente melhor.
Já o sexo é uma necessidade vital básica do ser
humano, a libido que conduz à prática do acto sexual que pode ser feito com
sentimento de comunhão afectiva ou sem ele, onde este acto em estado bruto tem
como objectivo alimentar um vício ou saciar a necessidade básica do corpo em
descarregar energia no auge do prazer, ou seja, um pecado aos olhos dos
tementes servidores dos Senhores da Sotaina, de mente frágil e incendiada, independentemente desses
doutos senhores pregarem o que não praticam.
Pois bem, cabe a cada um saber gerir estes dois tipos
de registos, Amor versus Sexo, ora como um todo enquanto casal, ora de forma
individual no seio do todo, onde o casal mantém em paralelo relações extra conjugais, ora de forma claramente individual na qualidade de solteiros e
divorciados. Todas as situações são aceitáveis e válidas, desde que o balanço
seja equilibrado e positivo para todos os sujeitos intervenientes no tipo de
afecto praticado, onde terá que haver obviamente concertação, verdade, respeito e
responsabilidade entre todas as partes. Mas isso já são outros valores que se
levantam, que os Senhores da Batina pregam à viva voz de forma precária, privilegiando
os direitos do ser de género masculino. Mais uma matéria que dá pano para fazer
muitas colecções de inverno!
Impontual, queres dar o mote?
Por fim e em jeito de conclusão, afirmo que homem e a mulher precisam, na mesma medida e na mesma proporção, de afecto
afectivo e de sexo para se sentirem seres vivos completos. Certo é que não há
relações afectivas perfeitas, mas também não existem manuais de instrução,
receitas ou conselhos de alguém ou de qualquer natureza, que nos ajudem a
manobrar, de forma sensata e ponderada, estes dois motores vitais que sustentam
a nossa condição humana, o Amor e o Sexo.
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