sábado, 19 de outubro de 2019

Estados da Reabilitação Subversiva

Artur Pastor - Praça do Cubo

Caro Impontual, apreciei bastante este seu testemunho, tanto, ao ponto de me fazer exercitar os dedos. Portanto, alavanquei-me nas suas palavras e desenhei a ultima tendência das operações de cosmética conservação, realizadas nos edifícios de génese construtiva tradicional e secular, à boa moda da nossa mentalidade burguesa. E como está na moda o chavão da reabilitação…

A reabilitação conforme se extrai da essência da sua definição, consiste na restituição de algo ao seu antigo estado, habilitando-o de novo. Ou seja, a reabilitação de um edifício deve ocorrer pela sua conservação / preservação integral, interior e exterior, considerando o seu valor patrimonial e histórico, independente das suas características arquitectónicas, mais ou menos ricas, mais ou menos eruditas. 
Excluindo esses edifícios exemplares, à partida identificados e protegidos pelas entidades de tutela competente, a reabilitação tem ocorrido pela conservação parcial dos demais edifícios antigos, por via da preservação exclusiva do seu invólucro com relação directa com o espaço publico que se lhe apõe.

Pois é! Hoje em dia, os edifícios “bonitos” oferecem sempre um corpo muito apelativo aos olhos de quem nada entende das disciplinas da arquitectura, da histórica e da cultura. Pobres ou esfomeados, os ditos são corrompidos com programas funcionais megalómanos, desproporcionais ao tamanho do seu modelito estrutural, rebentando com as costuras da urbanidade e da habitabilidade da cidade. Aqui o “dolo” até corre bem para a boa imagem da paisagem e para a boa passagem do turismo.
E agora?! Onde está a alma genuína? Onde está o ser? Onde está o sentir? Onde está o seu conteúdo material e substantivo? Onde ficarão registadas as memórias da história? No fachadismo privado sobreposto ao interesse público?

Aqui o dolo é nocivo para o povo, o vulgo cidadão comum, que vai perdendo a passos largos a sua identidade cultural, a sua cidade, a sua habitabilidade e o seu contexto na sociedade da cosmética estereotipada que em busca de lucro faz do lar uma casa deserta.
Portanto, nesta conjuntura leviana, a beleza casa bem com a ganância, com a FALSA ignorância e com a inteligência subversiva.

Sabe Impontual, o Porto transformou-se numa metrópole muito bonita e atractiva ao olhar do turista, mas não é o meu Porto, o que guardo com saudade na memória dos meus tempos de menina. A Ribeira foi purgada da sua alma, remanescendo do seu legado os meninos que ainda desafiam o Rio Douro do tabuleiro inferior da Ponto D. Luiz I. Mas até hoje, esses ladinos, para além da carolice vão à disputa da moeda em troca do espectáculo do salto.
Hoje o Porto é um porto de passagem com muito movimento mas sem a sua gente dentro. Não há como deixar registo afectivo da sua história na memória da nossa malta nova.

E posto isto, caro Impontual, vertendo esta imagem para a beleza da mulher, é um facto que a sua beleza pode ser estonteante e ao mesmo tempo perigosa se for indevidamente ousada a seu favor e a seu bem prazer. Mas aí, cabe ao seu oponente ser dotado de pulso firme e forte para não se deixar ofuscar e imbuir pelo momento a ponto de perder o norte e o bom senso.

A beleza só é realmente bonita quando cria *“(…), seres alma e sangue e vida em mim”.
 
*Florbela Espanca, Ser Poeta em ‘Charneca em Flor’

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

fios de gente "ausente"

imagem extraída do National Geografic 

poesia
brisa breve de emoção
estados d'alma
desassossego do coração
ausência não faz estória
tão-pouco escreve memórias
nas ermidas da saudade
ausência
cala a voz do silêncio
rouba espaço ao tempo
ganha corpo
declara morte ao momento
ausência desenha ausência
vazios prenhos de solidão
desalento
(in)consciência
pobre folha de papel deserta 
caída se vê na teia do esquecimento

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

magia matinal

30/11/2018 Cais Capelo Ivens - Marginal Ribeirinha de Vila Nova de Gaia

Sempre esperei ver-me à mercê da mudez,
não do encarceramento das palavras,
mas do emudecimento perante a beleza do momento.
Quero retribuir-me e não consigo,
de me ver assim,
intrincada num redemoinho de profundas emoções.
Hoje, deponho as palavras mais bonitas,
as que tenho guardado debaixo da pele,
nas asas de um Sonho meu.
Sonho que assim é,
e que assim deve permanecer, intacto,
imaculado no tempo e no espaço para nunca morrer,
enquanto memória minha
houver.



quarta-feira, 6 de junho de 2018

* we never be ashamed of our tears, for they are rain upon the blinding dust of earth, overlying our hard hearts

Sakura / Sayaka Maruyama

Título * Charles Dickens in Great Expectations

da dor
da tristeza
da autenticidade
da pureza
do desassossego
da mão que embala o berço
da fragilidade do ser
que incondicionalmente dá todo o seu bem-querer
o fogo frio trespassa o véu da pele até ao corpo da alma
que nem o fio de uma navalha afiada


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

O Amor precisa de Sexo, já o Sexo não precisa de Amor

Imagem retirada daqui
Há muito tempo que não dou ares da minha graça, mas o nosso amigo Impontual aguçou-me a mente e os dedos com a sua publicação, “Quem dera que o amor fosse como o sexo”, pelo que, e em jeito de comentário expresso aqui a minha opinião sobre esta matéria.

Meu caro Impontual, esta publicação daria pano para fazer muitas colecções de primavera-verão, na medida que cada sujeito tem a sua opinião sobre o tema, Amor versus Sexo, e todas elas são válidas. E sabes? Ainda bem. Cada um é um ser único que sente este dois “afectos”, com implicação comportamental, de modo diferente.
Excluo obviamente deste universo a opinião impositiva dos Senhores da Sotaina que a favor dos beatos sacramentos obrigam os seus fiéis depositários ao cumprimento de regras fundamentalistas e utópicas com sabor a hipocrisia.
Mas adiante.
Ora o Amor precisa de Sexo, já o Sexo não precisa de Amor. Vivemos numa cultura monogâmica que nos foi incutida desde o berço em jeito de lavagem cerebral pela Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana. E, é ao nível cerebral que toda a nossa percepção, sensitiva, emocional e afectiva é processada, e lá está, o corpo, o coração e razão nem sempre estão em sintonia perante esta dicotomia, Amor versus Sexo e Monogamia. Daí, o ciúme e o sentimento de posse tomarem conta da razão como instintos de defesa e de ataque, que em dose de austeridade desmedida destroem o tal afecto que denominas de Amor.
Em tempo escrevi que o Amor é um sentimento maior. Na sua essência é um afecto afectivo altruísta, não é um contrato comercial ou uma cobrança difícil. O amor não fere nem dói. O Amor é o que de melhor existe em cada um de nós. 

Ora, o Amor consagra, actos, atitudes, posturas e comportamentos que o ser humano não tem capacidade de garantir na íntegra ainda que o intente continuadamente. A meu ver sem grande sucesso. E com base neste meu princípio, digo que o Amor é um afecto etéreo, que só os Deuses têm capacidade de materializar. Não acredito que exista Um, ou o Deus, mas acredito nas qualidades extraordinárias de bem-querer que ainda assistem à humanidade que ficam à margem de qualquer credo religioso.
Agora, o Amor em sentido lato, é um sentimento maior que existe em todas as coisas com alma dentro, que alavanca e faz mover o mundo e que confere ao homem a capacidade de se fazer gente melhor.

Já o sexo é uma necessidade vital básica do ser humano, a libido que conduz à prática do acto sexual que pode ser feito com sentimento de comunhão afectiva ou sem ele, onde este acto em estado bruto tem como objectivo alimentar um vício ou saciar a necessidade básica do corpo em descarregar energia no auge do prazer, ou seja, um pecado aos olhos dos tementes servidores dos Senhores da Sotaina, de mente frágil e incendiada, independentemente desses doutos senhores pregarem o que não praticam.

Pois bem, cabe a cada um saber gerir estes dois tipos de registos, Amor versus Sexo, ora como um todo enquanto casal, ora de forma individual no seio do todo, onde o casal mantém em paralelo relações extra conjugais, ora de forma claramente individual na qualidade de solteiros e divorciados. Todas as situações são aceitáveis e válidas, desde que o balanço seja equilibrado e positivo para todos os sujeitos intervenientes no tipo de afecto praticado, onde terá que haver obviamente concertação, verdade, respeito e responsabilidade entre todas as partes. Mas isso já são outros valores que se levantam, que os Senhores da Batina pregam à viva voz de forma precária, privilegiando os direitos do ser de género masculino. Mais uma matéria que dá pano para fazer muitas colecções de inverno!

Impontual, queres dar o mote?

Por fim e em jeito de conclusão, afirmo que homem e a mulher precisam, na mesma medida e na mesma proporção, de afecto afectivo e de sexo para se sentirem seres vivos completos. Certo é que não há relações afectivas perfeitas, mas também não existem manuais de instrução, receitas ou conselhos de alguém ou de qualquer natureza, que nos ajudem a manobrar, de forma sensata e ponderada, estes dois motores vitais que sustentam a nossa condição humana, o Amor e o Sexo.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Ensaios sobre o Amor

Sebastião Salgado (2009)
Apreendi no tempo que o Amor é um sentimento maior. Na sua essência é um afecto altruísta, é um dar sem estar à espera de receber. Não é um contrato comercial ou uma cobrança difícil. O amor não fere nem dói. O Amor é o que de melhor existe em cada um de nós.  
Ora, o Amor consagra, actos, atitudes, posturas e comportamentos que o ser humano não tem capacidade de garantir na íntegra. E com base neste princípio, digo que o Amor é um afecto etéreo, que só os Deuses têm capacidade de materializar. Não acredito que exista Um, ou o Deus, mas acredito nas qualidades extraordinárias de bem-querer que ainda assistem à humanidade, onde este estado afectivo, se apresenta como um ensaio, como uma procura resiliente que se tem prolongado no tempo e que para além do tempo vai, sem ser plenamente encontrado. 
De facto, todos desejamos ser abençoados por tal estado de graça, mas colocamo-nos numa posição de autismo confortável e preferimos gerir os afectos com actos embelezados e falsas promessas, e ainda o justificamos com o conceito de liberdade e com os direitos consagrados pela legislação redigida pela mão imperfeita do próprio ser.
Enfim, nós, na nossa humilde condição mortal e de constante insatisfação procuramos ser tocados pelo Amor, mas rendemo-nos sistematicamente aos devaneios da paixão, esse sentimento forte e explosivo, que nos leva ao êxtase ébrio de prazer e bem-estar, que, mal canalizado conduz a práticas de actos inadequados, invocados em seu “bom” nome.
Se repararem, este ultimo juízo de valor é tecido ao Amor Romântico, aquele sentimento poético que reside no mundo do sonho paradisíaco. Já cantam os poetas que o Amor ora tem a duração fulminante do instante, ora tem duração perpétua para além da vida. A meu ver é um afecto cego portador das patologias crónicas da síndrome da Paixão, em jeito de cocktail explosivo, onde se misturam no mesmo copo, um vasto número de sentimentos, que por fim, acaba por transbordar cheios e vazios numa proporção que perturba o equilíbrio do sujeito.
Gerir o afecto romântico requer alguma regra e muita auto-disciplina interior para que se consiga atingir o equilíbrio entre as partes, até porque a vida não gira só em volta do amor e de uma cabana. A vida tem que ser vivida um dia após o outro com os pés bem assentes na terra. Os sonhos e a fantasia também fazem parte dela, mas quantas vezes se penhoram os dias por conta de expectativas, sonhos e desejos que não têm fim nem têm fundo!?
Eu, resiliente me confesso, aprendi a viver a vida de uma forma prática e objectiva, onde a lógica e a razão se sobrepõe aos desmandos do coração. E assim, neste registo procuro o sentimento maior nas coisas genuínas e nos gestos simples dos meus dias. Já o mundo encantado dos “Se´s” e dos “Quases´s”, que me anestesia das questões da rotina, guardo-o no meio das páginas dos livros que leio, ou visito-o de vez em quando, quando escrevo.