domingo, 30 de junho de 2013

Jardins Proibidos



















Título: Oak Tree in Mist
Fotógrafo: laura a. watt
Colecção: Flickr

De novo o teu rosto
deu corpo ao meu sonho.
Demos um abraço sem igual
como se o amanhã não nos fosse real.
Demos as mãos,
e de mãos dadas andamos
pelas ruas despidas,
aos olhos de janelas cegas e mudas.
Mas continuamos no nosso jogo das escondidas
por becos e esquinas
como duas crianças traquinas.
Trocamos palavras bonitas,
fizemos juras de amor eterno,
e talhamo-nos na pele de um carvalho
como prova viva
da nossa existência
no paraíso dos jardins proibidos.
A corda do tempo não parou,
a realidade caiu em mim,
e mais uma vez de joelhos ao chão, gritei.
Sempre que nos encontrámos,

é para nos despedir
.

video

"Jardins Proibidos" - Paulo Gonzo e Olavo Bilac

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Das Páginas Sociais ao Paraíso Envenenado























Título: Woman Presented as an Apple Tree
Fotógrafo: Emma Innocenti
Colecção: Stone

Sabes meu querido,
não gosto de ser comparada,
escrevo quando me apetece
sem compromisso ou hora marcada.
Mas certo é,
que começo a ficar saturada
de me ver endoidecida pelo vicio da escrita.
Quero sentir-me viva,
com o trivial e banal da vida,
como dar um passeio por aí de mão dada contigo
sem tempo e sem destino.

(Vá lá, não torças o nariz
e dá-me o teu sorriso rasgado de menino)

Quero rir, quero gargalhar,
quero disparatar,
quero até ter ataques de caspa enciumada,
quando te sei olhar para a bainha de outra saia.
Não quero impressionar
tão pouco ser obrigada a agradar,
e vê lá tu, que até quero  vomitar o meu mau feitio
quando o fígado está entupido.

(Sou louca, já sei, já me deste conta disso)

Sabes meu querido eu só quero ser eu.
Ser eu quando estou só,
ser eu quando estou contigo,
ser eu com todas as qualidades e defeitos
a que tenha direito.
Só quero voltar ao ser do meu eu,
ser autêntica e genuína
sem os artifícios que emanam da poesia.

(Já sei, também sou uma menina mimada
de nariz empinado, e?
Tantas há por aí. Mas ao menos eu reconheço
o meu próprio defeito de fabrico.)

Agora meu querido
fica aqui o meu aviso.
Fantasia tece poesia,
e poesia paixão iludida.
E, neste mundo encantado,
o que se tece em privado
é sempre fiado do outro lado.
Tem cuidado meu querido,
olha que este piso
é lodoso e escorregadio.
Um recado mal dado
e outro mal recebido
faz deste espaço
um paraíso envenenado.


quarta-feira, 26 de junho de 2013

Flor do Deserto
















Título: Pink Flower Dress
Fotógrafo: Olena Chernenko
Colecção: Vetta

Esta noite, o teu rosto
ganhou corpo no meu sonho.
Abraçaste-me por trás,
pousaste um beijo suave no meu pescoço,
e um gosto de ti ao ouvido.
Estremeci, acordei,
revolvi-me do avesso e gritei.
Não me sei ver resumida a um ser insignificante,
tão pouco ser um grão de silêncio na imensidão do teu universo.
Revolver-me-ei sempre do avesso
até te ser uma rosa de emoção em pleno deserto.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Cegueira



















Título: Woman Tied to Chair
Fotógrafo: photo by Anna Theodora
Colecção: Flickr

Quando fecho os olhos
o teu corpo alcança o meu umbigo,
a tua voz trovoada entranhasse-me num arrepio,
e o meu sonho sonha contigo.
E quando fecho os olhos
sinto o cheiro do teu cabelo,
o toque da tua pele,
o gosto intenso do teu beijo,
o bater do teu coração inteiro dentro do meu peito.
Sabes? Quando fecho os olhos,
és-me um pecado na mão,
um tornado desenfreado,
uma tempestade de emoção.
Mas quando os olhos se abrem,
a visão arranca-te dos meu braços
para outra dimensão,
e afunda-me na luz da escuridão.
Sabes? Só a cegueira me faz mulher inteira,
só ela te vê, te sente e te tem sem regras e sem fronteiras.

sábado, 15 de junho de 2013

Palavra Desfeita




















Título: Mud Bath
Fotógrafo: Olena Chernenko
Colecção: Vetta

A palavra secou as lágrimas.
O leito da terra ganhou pedra
As margens rasaram desertas
As aves caíram,
as zebras e as gazelas tombaram,
os elefantes, hipós e rinos
daquela sorte também não escaparam.
A cheta e o leão sem carne fresca à mão
também foram parar ao chão.
O cemitério medrou a céu aberto,
e do poema nasceu um monte enfermo.
Os abutres e as hienas que aguardavam à espreita,
e outros vermes interesseiros vieram direitos ao cheiro
chafurdar nos restos da palavra desfeita.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Virado do Avesso

























Título: Other Morning
Fotógrafo: Olena Chernenko
Colecção: Vetta

Desfizeste o nó da gravata,
e à dentada arrancaste
os botões da camisa engomada.
Cortaste as mangas do fato,
e com elas,
vieram as outras mangas por arrasto.
Sacudiste os macacos do telhado,
limpaste o pó da casa,
deste luz ao candeeiro,
e do medo fizeste
uma mesa de prato cheio.
De facto,
acordaste virado do avesso,
mas deste o salto para o outro lado
antes de te veres esmagado
pelo mesmo pesadelo.
Hoje, leve e solto
estás descontraído e preparado
mesmo a jeito de te veres atropelado, 
desta vez pelo meu beijo.

sábado, 1 de junho de 2013

Let her go























Título: The Broken Wall
Fotógrafo: Olena Chernenko
Colecção: E+

Ela sente-o rasgar em dor por dentro
no eco de qual grito
esganado e aflito.
Sabe que ele não tem coragem de a amar,
tão pouco tem coragem
de lhe pedir para se ir embora daquele lugar.
E no silêncio da noite,
noite após noite, 
escuta o lamento daquele fado 
em tormento.
Está na hora de partir 
para que ele pare de se ferir.
Amanhã, ao raiar da aurora,
vai sair e bater a porta com toda a sua força,
consciente de que ele não vai reagir,
ou mesmo a vai impedir.
Sabe que aquela dor vai-lhe aliviar,
mas ficará uma outra, ainda maior no seu lugar.
Ela parte livre para lamber as feridas e renascer das cinzas,
deixando-o ali acorrentado ao peso do medo e do arrependimento,
onde permanecerá estagnado à mercê da sua sorte,
abandonado.