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| Imagem extraída do Pinterest |
Era uma vez uma Rua que vivia numa grande cidade. Hoje, o culto da indumentária automóvel tornou-a indistinguível de tantas outras ruas que habitam essa cidade ou qualquer outra localidade.
As ruas não são estradas. Porém, na actualidade, vestem-se como tal. O automóvel conquistou protagonismo sobre o peão, subvertendo a hierarquia da condição humana e roubando espaço à permanência, ao encontro e à convivência. A dependência do carro, porta a porta, apresenta-se como um direito adquirido, instalado na mentalidade colectiva como um vício consentido e institucionalizado.
E a dependência sistemática é um vício. Uma doença socialmente aceite que, neste contexto de urbanidade, empobrece a qualidade de vida das comunidades. Fragiliza as relações familiares e sociais, afecta a saúde física e mental e contribui para a degradação dos ecossistemas. As suas repercussões estendem-se aos sistemas ecológico, bio-natural, ambiental e climático do planeta que, afinal, é apenas a casa de todos nós.
A urbe é um organismo vivo, complexo e em permanente transformação. Os edifícios e os espaços-canal onde estes se apoiam constituem uma unidade indissociável, uma relação de coexistência mútua que molda a identidade e o funcionamento da cidade.
Numa perspectiva mais romântica, as ruas são fontes de vida. São lugares onde o mundo acontece, onde circula a energia que alimenta o corpo e inspira a alma das cidades. E uma cidade com alma vive de gente com alma dentro. Gente responsável, que cuida de si, dos outros, do seu lar e do lar comum que partilha com a comunidade.
Uma sociedade assente na entrega, no respeito e na dedicação dá corpo a uma cidade saudável, equilibrada, segura e amiga do ambiente — uma cidade bio-climatizada, bio-diversificada e funcionalmente harmoniosa. Uma cidade bonita e aprazível convida ao encontro, educa para as boas práticas de lazer e fortalece as relações familiares, sociais e comunitárias. Aproxima-nos da natureza na sua essência e devolve ao automóvel o papel que lhe pertence: o de meio de transporte mecanizado, utilizado de forma racional e, preferencialmente, ao serviço da mobilidade colectiva.
Mas a realidade está longe desta visão poética.
A urbanidade encontra-se afundada num oceano de lata, transitável e estacionário, que irriga as cidades com substâncias tóxicas. As ruas adoecem. O ar torna-se pesado. Crescem a intolerância, a irritabilidade e a indisponibilidade para o outro. As relações familiares, de vizinhança, sociais e profissionais deterioram-se silenciosamente.
Hoje, muitas ruas vivem de costas voltadas para o mundo. E a sua gente vive à margem da própria vida, numa correria desenfreada contra o tempo, de olhos postos no conforto individual e no protagonismo social.
Continuamos presos a velhos hábitos profundamente enraizados. Com demasiada frequência, confundimos prosperidade com ostentação e sucesso com demonstração de poder. A necessidade de afirmação do ego cresce na mesma medida em que empobrece a consciência colectiva.
Comportamento após comportamento, escolha após escolha, a engrenagem vital desta grande máquina entrou em falência. E conduziu-nos ao estado actual de emergência bio-climática, aproximando-nos perigosamente de um ponto de quase não retorno.
Não sei se ainda haverá tempo para inverter este caminho, mesmo que devolvamos às ruas a vida e o pulmão que lhes foi retirado.
Também não sei como expressar plenamente este sentimento de impotência. Durante muito tempo olhei para as ruas, mas não as via. Não as via com o olhar de sentir. Não as reconhecia como seres vivos, naturais e orgânicos, que agora sei que são.
E um ser vivo, tal como eu, precisa de colo, de amor e de cuidado. Precisa de energia positiva para crescer, evoluir, gerar boas sementes e bons frutos. Precisa, acima de tudo, de transmitir um legado digno às gerações que lhe sucedem.
Embora me considere uma pessoa sensível e aberta aos processos criativos que desafiam os modelos estabelecidos, também eu fui moldada pela visão clássica do espaço urbano que a norma institucionalizou durante décadas.
Sei que não sou filha única neste enredo. Somos muitos os actores deste palco. Mas também sei que cada um de nós pode ser um agente de contágio positivo. E que, juntos, enquanto agentes activos de mudança, podemos inspirar novas formas de pensar, desenhar e viver a cidade.
Não deixo promessas.
Mas assumo uma missão.
A missão de devolver vida às ruas, para que as ruas possam devolver vida às pessoas.

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