Apreendi no tempo que o Amor é um sentimento maior. Na sua essência é um afecto altruísta, é um dar sem estar à espera de receber. Não é um contrato comercial ou uma cobrança difícil. O amor não fere nem dói. O Amor é o que de melhor existe em cada um de nós.
Ora, o Amor consagra, actos, atitudes, posturas e comportamentos que o ser humano não tem capacidade de garantir na íntegra. E com base neste princípio, digo que o Amor é um afecto etéreo, que só os Deuses têm capacidade de materializar. Não acredito que exista Um, ou o Deus, mas acredito nas qualidades extraordinárias de bem-querer que ainda assistem à humanidade, onde este estado afectivo, se apresenta como um ensaio, como uma procura resiliente que se tem prolongado no tempo e que para além do tempo vai, sem ser plenamente encontrado.
De facto, todos desejamos ser abençoados por tal estado de graça, mas colocamo-nos numa posição de autismo confortável e preferimos gerir os afectos com actos embelezados e falsas promessas, e ainda o justificamos com o conceito de liberdade e com os direitos consagrados pela legislação redigida pela mão imperfeita do próprio ser.
Enfim, nós, na nossa humilde condição mortal e de constante insatisfação procuramos ser tocados pelo Amor, mas rendemo-nos sistematicamente aos devaneios da paixão, esse sentimento forte e explosivo, que nos leva ao êxtase ébrio de prazer e bem-estar, que, mal canalizado conduz a práticas de actos inadequados, invocados em seu “bom” nome.
Se repararem, este ultimo juízo de valor é tecido ao Amor Romântico, aquele sentimento poético que reside no mundo do sonho paradisíaco. Já cantam os poetas que o Amor ora tem a duração fulminante do instante, ora tem duração perpétua para além da vida. A meu ver é um afecto cego portador das patologias crónicas da síndrome da Paixão, em jeito de cocktail explosivo, onde se misturam no mesmo copo, um vasto número de sentimentos, que por fim, acaba por transbordar cheios e vazios numa proporção que perturba o equilíbrio do sujeito.
Gerir o afecto romântico requer alguma regra e muita auto-disciplina interior para que se consiga atingir o equilíbrio entre as partes, até porque a vida não gira só em volta do amor e de uma cabana. A vida tem que ser vivida um dia após o outro com os pés bem assentes na terra. Os sonhos e a fantasia também fazem parte dela, mas quantas vezes se penhoram os dias por conta de expectativas, sonhos e desejos que não têm fim nem têm fundo!?
Eu, resiliente me confesso, aprendi a viver a vida de uma forma prática e objectiva, onde a lógica e a razão se sobrepõe aos desmandos do coração. E assim, neste registo procuro o sentimento maior nas coisas genuínas e nos gestos simples dos meus dias. Já o mundo encantado dos “Se´s” e dos “Quases´s”, que me anestesia das questões da rotina, guardo-o no meio das páginas dos livros que leio, ou visito-o de vez em quando, quando escrevo.
“o amor é uma invenção esgotante”, passo acitar uma citaçãoextraída
do“Fim de Setembro”do Impontual.
Se me permite(s), sem qualquer intenção ou presunção,
complemento e acrescento, que tal invenção é um fenómeno resiliente que nunca
se esgota.
As
pessoas vão tropeçando por aí, umas nas outras, mas há aquelas que nos embatem de
forma especial. Sem que dê-mos conta, entram sem permissão e instalam-se de
mansinho dentro do nosso ninho afectivo, e o mais engraçado é que não há nada
nem ninguém que quebre essa corrente transparente; nem o silêncio prolongado no
tempo, nem a extrema e franca distância, tão pouco a crispação de personalidade
entre feitios aguçados. O amor afigura-se como um menino traquina, mais teimoso
que a própria teimosia.
Apesar
de todos os pesares, a espera, a esperança e a espectativa continuam a ser os
fios condutores que alimentam esse fenómeno crónico. E, apesar de o Amor ser “uma invenção esgotante” que nunca se esgota,
é dele que brota a força para se continuar a caminhada, com a vantagem de que o
numero primo nunca vai sozinho, segue sempre de coração embalado e aquecido
numa nuvem de algodão doce com sabor a baunilha.
O “Se” e o “Quase” são duas palavras distintas, que enquanto matéria substantiva
tentam atingir a unidade de medida do tempo e do espaço, respectivamente, a meu
ver, sem grande sucesso. Elas flutuam no vácuo do abismo entre a dimensão
sensorial e o universo de todas a impossibilidades só ali possíveis. Ora é lá, no
mundo dos Se´s e dos Quase’s que brota a nascente da poesia mais
bonita e genuína. É lá, no mundo dos Se´s e dos Quase’s que o sonho presenteia
o ventre do corpo com asas de borboleta e o ser levanta vooem
direcção ao céu, qual limite infinito residente dentro da mente (in)consciente.
Resumindo
e baralhando, gosto muito de poesia e do mundo fantástico ou fantasioso onde
ela se movimenta que nem um polvo no seu habitat natural, agora, Já não gosto
de sentir os tentáculos pegajosos dos Se’s e dos Quase’s na corrente sanguínea do
meu dia-a-dia. Gosto de poesia, gosto de encher as medidas da alma, gosto de sentir
o tesão da paixão à flor da pele e levantar voo de seguida, mas antes disso, antes de ser
consumida pelo vício da espectativa, preciso de saber defender bem a minha baliza, preciso de conhecer
bem a medida do meu tempo e do meu espaço, e, acima de tudo preciso de ter mão precisa no
trajecto do meu caminho. Portanto, viagens ao mundo dos Se’s e dos Quase’s, só
com cinto, de alta segurança.
O deserto é um mundo imenso cheio de vazio dentro.
Tem horas do dia que o céu se confunde com a areia, iludindo o horizonte do
olhar com a imagem do mar, e, à noite, a plenitude do universo galáctico está
mesmo ali, ao alcance da mão.
Aquela beleza estonteante, camuflada de perigo, exala mistério e
desperta grande curiosidade ao “inimigo”. Há quem se atreva ao
desafio da sua descoberta, testando a sua capacidade de resistência. Já os mais “acanhados” preferem
esconder a falta de coragem, enfiando a cabeça na areia.
Pois é, o abismo é o copo vazio mais cheio que
conheço. Todos têm sede de o beber, mas nem todos tem audácia para o fazer.
Sabemos bem o que não deve ser
feito.
Qual silêncio sobreposto,
qual grito aflito,
qual olhar imperfeito!
Coração que sente
não define conceito,
nem se exprime como mente.
A própria razão
desconhece a razão do seu próprio ente.
Coração que é alma de gente,
sempre se revela e sempre desmente
o que a palavra cala e não lhe consente.
E agora? Quando o consentimento da palavra não lhe for bastante e suficiente?
Deixar-nos-emos esvair por entre os dedos,
na hora do acerto dos ponteiros,
anichando de forma assistida
ao conforto da cobardia?
Ou será que nos permitiremos enfrentar
como se alguém nos espetasse o
dedo na ferida,
garantindo a coragem do ser grão
enquanto a vida nos respira?
A palavra tem a capacidade extraordinária de
condução, indução e de expressão. Esboça contornos, enche os egos da alma e
projecta expectativas viciantes na mente humana, como se de uma droga pesada se tratasse. Contudo, Maria “Papoula” tem um grande senão, o da não resolução da matéria em questão. Ainda que o seu efeito terapêutico seja de
grande motivação e o seu efeito alucinogénio não tenha asas de limitação, no que respeita à matéria da matéria inteira, verifica-se que a falta de
matéria deixa a matéria da matéria muito a desejar, e, toda a matéria que se quer corpo tangível por inteiro tem muita sede de gritar.
Pois será por conta do ópio, que a palavra se vê isolada para além da hora desejada, e, quando para além dela não existe mais nada, a alma esvazia e o
corpo ressaca.
Existe uma linha imperceptível que determina o eixo
vertical da nossa (as)simetria estrutural, quer física, quer emocional. Essa
silhueta ténue de linha fina não deixa de ser uma figura geométrica fictícia
que nos divide e que nos define, mas que também nos crucifica do princípio ao
fim da vida. Pese embora a robustez do segmento de recta que nos comporta, verifica-se que o
fio da respectiva rota vai tropeçando no eixo axial do tempo, levando os pontos
de fuga a abrir frestas a novas perspectivas.