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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

magia matinal

30/11/2018 Cais Capelo Ivens - Marginal Ribeirinha de Vila Nova de Gaia

Sempre esperei ver-me à mercê da mudez,
não do encarceramento das palavras,
mas do emudecimento perante a beleza do momento.
Quero retribuir-me e não consigo,
de me ver assim,
intrincada num redemoinho de profundas emoções.
Hoje, deponho as palavras mais bonitas,
as que tenho guardado debaixo da pele,
nas asas de um Sonho meu.
Sonho que assim é,
e que assim deve permanecer, intacto,
imaculado no tempo e no espaço para nunca morrer,
enquanto memória minha
houver.



quarta-feira, 6 de junho de 2018

* we never be ashamed of our tears, for they are rain upon the blinding dust of earth, overlying our hard hearts

Sakura / Sayaka Maruyama

Título * Charles Dickens in Great Expectations

da dor
da tristeza
da autenticidade
da pureza
do desassossego
da mão que embala o berço
da fragilidade do ser
que incondicionalmente dá todo o seu bem-querer
o fogo frio trespassa o véu da pele até ao corpo da alma
que nem o fio de uma navalha afiada


domingo, 12 de fevereiro de 2017

Porto de Abrigo

Mercuro B. Cotto
Ele carrega na alma
a calma do fio
de uma navalha afiada;
abre caminho
por entre espinhos,
costas escarpadas,
e tendas de circo
como quem aconchega sonhos
de algodão doce
em noites de seda velada.
Guarda o tempo no bolso,
a noite e o dia ainda são crias pequeninas…
Lança as velas ao vento,
folhas de papel crepe colorido,
por um fio,
trilho transparente,
quiçá inexistente.
Qual navalha que lhe dá o corpo
que lhe dá a alma, que o faz gente,
sangue do meu sangue frio a ferro quente,
ventre que pare a dor de um filho,
mão guardiã,
porto do meu abrigo.

sábado, 2 de julho de 2016

Da Memória Intermitente

NOELL S. OSZVALD

O filamento incandescente da memória tem vindo a padecer de hiatos de intermitência entre as terras saudade e as terras do esquecimento. A ampulheta da cegueira partiu-se no meio do recheio do sótão desarrumado, deixando espalhados ao acaso os estilhaços do tempo da espera.
O fio do tempo desatou o nó da clausura, implodindo a cadeira vazia quase em estado de asfixia. Não lhe apetece escrever, não lhe apetece arrumar os cacos, não lhe apetece (re)lembrar, até porque isso implicaria repovoar a dor da saudade, mas também tem medo de esquecer e de cair no esquecimento, e a escuridão permanente está mesmo ali, na iminência de se instalar definitivamente.
À cautela, resta-lhe desligar o interruptor e acender uma vela no parapeito interior da janela, e, mais uma vez sabe que vai esperar que o destino fatídico se cumpra até à queda do último pingo de cera.

domingo, 5 de junho de 2016

Vanilla Dreams

Fotografia de M. Inês Louçano
I'm in heaven, 
lying on cotton candy clouds 
tasting vanilla dreams;
So, do me a favor, 
don’t wake me up!




The Game 

Come, let us play a game, little boy,
To while the world away.
What shall be – tell me – our harmless toy?
At what shall we play?

Shall we play – shall we? – at being great?
No, nor at being grand.
Shall we believe that we are Fate
And make up lives out sand?

No, little boy, we will play that we are
Happy, and that we are gay;
Let us pretend we are dreams, very far
From the world in which we play.

*Alexander Search
January 2nd. 1908


***
(TRAD.)

O Jogo

Anda, rapaz, deixa o mundo real,
Vamos jogar um jogo.
O que será – diz lá – brincadeira sem mal?
A que jogamos logo?

Vamos brincar - que tal – a quem é o mais forte?
Não, nem ao mais valente
Fingimos que somos a Sorte
E do pó fazemos gente?

Não, rapaz, afinal jogamos antes
A tão contentes que estamos;
Fingimos que somos sonhos, distantes
Deste mundo em que brincamos.

*Alexander Search
2 de Janeiro de 1908


*um dos 136 autores fictícios de Fernando Pessoa 
Poema extraído da edição de Jerónimo Pizarro e Patrício Ferrari - Tinta da China

Eu sou uma antologia
136 autores fictícios 
Fernando Pessoa

*Alexander Search, a mais prolífera figura literária do universo pessoano antes do mês «triunfal» de Março de 1914. Terá nascido em Lisboa a 13 de Junho de 1988, isto é na mesma cidade e na mesma cidade que Fernando Pessoa. Terá surgido na mente de Pessoa em 1906, ano em que começa a herdar os poemas antes atribuídos a Charles Robert Anon.(…)
«A Search» ou «Alex. Search», como assina alguns textos, foi uma figura poliglota, essencialmente activa entre 1906 e 1911. Porem o seu nome cionsta ainda de um plano literário de 1914, as suas iniciais surgem num cabeçalho de uma entrevista a *Alberto Caeiro – redigida em português e realizada e Espanha, onde esteve Search – , e é, uma vez mais, citando num plano editorial tardio, posterior a 1932.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Palavra Autista

Jerry Uelsmann
























Ora aqui estou eu de fronte para uma folha de papel virtual imaculada a lançar-lhe aquele olhar de matadora, mas a miúda, mais teimosa que um jumento, ignora-me qualquer resposta. Só pode ser publicidade enganosa, esta história dos olhos serem o espelho da alma. Nesta mesma medida começo a duvidar da famosa teoria da brancura do algodão, que não engana. Caramba, como esta luta em busca da conectividade é inglória. Estaremos perante uma realidade turva que se mostra desajustada à visão semicerrada, que me dá sempre jeito para filtrar impurezas?! Ou estaremos perante uma realidade de paridade impraticável quando é claramente visível e evidente o princípio de equidade?! Podemos também estar numa realidade alienígena, que nos olha como se fossemos uns seres estranhos e aberrantes acabados de ser paridos da tendinha dos horrores! Ou então, estamos definitivamente numa realidade mundial onde impera a cegueira autista.
Ora de volta ao início, aqui permaneço eu, queda e serena (quase a bater no teclado) a tentar comunicar com a miúda interactiva, mas ela continua na sua com a sua brancura luminosa e teimosa sem me conceder a mínima expectativa. Agora o que me dá ganas não é a miúda, mas sim o que ela representa. A realidade do mundo acontece deste lado, do lado de fora da porta, onde estou eu, onde estás tu, onde estamos todos nós, que preferimos o conforto da palavra autista.
Agora para terminar, deixo-vos com mais umas palavrinhas gastas.

No silêncio de um olhar
dizem-se coisas maravilhosas
que as palavras
não têm capacidade de comportar.
As minhas estão gastas
e tu mundo,
lamentavelmente,
estás muito longe de mim...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Dos Instintos

Angela Buron
Raios-te-partam homem,
que te divertes a jogar os sentimentos
num tabuleiro de xadrez
como se de peças inanimadas
se tratassem.
O xeque-mate acontece,
não se compadece,
desconhecida é a sorte 
que se te tece.
De que te adianta ser,
um ser manipulador!
Já tu, felino, és bicho caçador.
Por norma traças o teu destino
pelo fio do instinto.
Ainda assim, emprestas-te 
independente,
somente a quem queres,
e a quem te sente verdadeiramente.
O respeito e a desconfiança,
são as regras de base,
que estabelecem as tuas zonas de conforto
e que definem as tua margens
de segurança.
O felino, esse bicho sozinho, 
só vira “bicho” e deita as garras de fora
quando ameaçado pelo perigo.
Já tu, homem,
ser vil e mesquinho,
por tudo e por coisa nenhuma
viras “bicho”.
E, pior que o bicho instintivo
só mesmo o bicho premeditado!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Da Palavra (In)Suficiente

Imagem tirada daqui

Admito que a palavra já não seja suficiente
para a alma que se quer gente.
Talvez tenha perdido a voz,
ou talvez se tenha perdido pelo caminho
no encalço da frequência da onda.
É impossível remar o vazio,
não há atrito de catapulta,
que permita combater a corrente do vício.
Perante a surdez do umbigo,
a palavra não carece de ser gasta
nem tão pouco de ser desperdiçada,
até porque,
o ruído engasgado do disco riscado
é por demais incomodativo 
ao ouvido mais “delicado”.
A palavra já não é suficiente
diz a gente que se entende boa gente.
E, quando não se basta,
a porta do Silêncio
é o Grito da morada mais acertada.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Ghost Town

Guankan-jima (Japan): the forbidden Island
Fotografia retirada 
daqui

























O mote para debitar umas linhas de raciocínio escorreito, sequencial e ordenado até mostram vontade de se rebelarem contra o sifão mental entupido, mas o cansaço e a preguiça do corpo, tendem a querer levar-me a melhor.
É fácil de identificar o estado arredio do meu espírito, sem disposição para ocupar o parco tempo e o pensamento com os não assuntos que fazem a ordem do dia da urbe social.
A vida real é, por vezes, ou quase sempre, dura e pesada. Está à vista para quem a quiser ver com olhos de ver, no entanto quando enfrentada, como quem atreve os cornos de um touro bravo ou mete os dedos na ferida, oferece-se perante nós numa caixa de chocolates sortidos agridoces. Nunca se tem presente o resultado a curto prazo, nem a indumentária de gala que a traja, mas a imagem panorâmica que se tem sobre o mapa, captada ao radar de uma ave de rapina, permite-nos a capacidade da antever e desenvolver estratégias de reacção e defesa. Mas será esta uma boa estratégia? Nos dias correntes, já nem sei!
Entretanto, a dureza dos seus componentes físicos e químicos tem dado corpo à minha rotina nos últimos tempos. O tempo contado ao milímetro não permite o correcto desempenho da junta de dilatação, nem a renovação de ar ventilado, e, o desgaste das engrenagens não se compadece com desperdícios de energia que se impõe necessários para dar repouso ao corpo.
É imperativo descobrir a forma de como dar folga às costas em proveito próprio. O estendal afectivo já não comporta o peso de uma alma roubada, calejada e endurecida, que perdeu a motivação para sonhar…
Mas todo este relambório, denso e massudo, que depois de espremido não lhe sai pingo de sumo, foi despoletado por conta de um vídeo de música que despertou a minha atenção num momento de pausa kit-kat na companhia da minha filha caçoula. Deixei-me envolver pelo ritmo e pela beleza dos corpos jovens e enérgicos que acompanham a música em movimentos livres, espontâneos e sensuais. Deu-se em mim um click. Afinal aqui ainda mora vontade. Afinal é possível superar este estado de cegueira catatónica. Basta sacudir as asas, fazer log out, e entrar em modo de navegação automático.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Olhar Mendigo


























Título: Trauma – self-portrait
Fotógrafo: Cristina Otero
Colecção: Flickr

Já reparaste Maria, no olhar mendigo estampado neste rosto macerado pelo rigor do frio! Até parece o meu, rapariga...
Pois é Maria, aqui a palhaça, só tem um papel a desempenhar no recheio da arena, o de servir e o de fazer rir o umbigo farto da plateia. Acontece Maria, que mesmo toda a arte de circo carece de colo e de abrigo para manter o brio…

sábado, 28 de março de 2015

RaisParta!


























Photographer and retoucher - Lauren Catherine - Kaigg

Tropecei
na areia, 
caí,
furei a teia. 
Disse mal 
da vida! 
Tem dias 
que é fodida,
ora dá,
ora tira 
e ainda tece
com ironia. 

RaisParta!