da dor da tristeza da autenticidade da pureza do desassossego da mão que embala o berço da fragilidade do ser que incondicionalmente dá todo o seu bem-querer o fogo frio trespassa o véu da pele até ao corpo da alma que nem o fio de uma navalha afiada
O filamento
incandescente da memória tem vindo a padecer de hiatos de intermitência entre
as terras saudade e as terras do esquecimento. A ampulheta da cegueira
partiu-se no meio do recheio do sótão desarrumado, deixando espalhados ao acaso
os estilhaços do tempo da espera.
O fio do
tempo desatou o nó da clausura, implodindo a cadeira vazia quase em estado de
asfixia. Não lhe apetece escrever, não lhe apetece arrumar os cacos, não lhe
apetece (re)lembrar, até porque isso implicaria repovoar a dor da saudade, mas
também tem medo de esquecer e de cair no esquecimento, e a escuridão permanente
está mesmo ali, na iminência de se instalar definitivamente.
À cautela,
resta-lhe desligar o interruptor e acender uma vela no parapeito interior da
janela, e, mais uma vez sabe que vai esperar que o destino fatídico se cumpra
até à queda do último pingo de cera.
I'm in heaven, lying on cotton candy clouds tasting vanilla dreams; So, do me a favor, don’t wake me up!
The Game Come, let us play a game, little boy, To while the world away. What shall be – tell me – our harmless toy? At what shall we play? Shall we play – shall we? – at being great? No, nor at being grand. Shall we believe that we are Fate And make up lives out sand? No, little boy, we will play that we are Happy, and that we are gay; Let us pretend we are dreams, very far From the world in which we play.
*Alexander Search
January 2nd. 1908
***
(TRAD.)
O Jogo Anda, rapaz, deixa o mundo real, Vamos jogar um jogo. O que será – diz lá – brincadeira sem mal? A que jogamos logo? Vamos brincar - que tal – a quem é o mais forte? Não, nem ao mais valente Fingimos que somos a Sorte E do pó fazemos gente? Não, rapaz, afinal jogamos antes A tão contentes que estamos; Fingimos que somos sonhos, distantes Deste mundo em que brincamos.
*Alexander Search 2 de Janeiro de 1908
*um dos 136 autores fictícios de Fernando Pessoa Poema extraído da edição de Jerónimo Pizarro e Patrício Ferrari - Tinta da China Eu sou uma antologia 136 autores fictícios Fernando Pessoa
*Alexander Search, a mais prolífera figura literária do universo pessoano antes do mês «triunfal» de Março de 1914. Terá nascido em Lisboa a 13 de Junho de 1988, isto é na mesma cidade e na mesma cidade que Fernando Pessoa. Terá surgido na mente de Pessoa em 1906, ano em que começa a herdar os poemas antes atribuídos a Charles Robert Anon.(…)
«A Search» ou «Alex. Search», como assina alguns textos, foi uma figura poliglota, essencialmente activa entre 1906 e 1911. Porem o seu nome cionsta ainda de um plano literário de 1914, as suas iniciais surgem num cabeçalho de uma entrevista a *Alberto Caeiro – redigida em português e realizada e Espanha, onde esteve Search – , e é, uma vez mais, citando num plano editorial tardio, posterior a 1932.
Ora aqui estou eu de fronte para uma folha de papel
virtual imaculada a lançar-lhe aquele olhar de matadora, mas a miúda, mais
teimosa que um jumento, ignora-me qualquer resposta. Só pode ser publicidade
enganosa, esta história dos olhos serem o espelho da alma. Nesta mesma medida
começo a duvidar da famosa teoria da brancura do algodão, que não engana.
Caramba, como esta luta em busca da conectividade é inglória. Estaremos perante
uma realidade turva que se mostra desajustada à visão semicerrada, que me dá
sempre jeito para filtrar impurezas?! Ou estaremos perante uma realidade de
paridade impraticável quando é claramente visível e evidente o princípio de
equidade?! Podemos também estar numa realidade alienígena, que nos olha como se fossemos
uns seres estranhos e aberrantes acabados de ser paridos da tendinha dos
horrores! Ou então, estamos definitivamentenuma realidade mundial onde impera a cegueira autista.
Ora de volta ao início, aqui permaneço eu, queda e
serena (quase a bater no teclado) a tentar comunicar com a miúda interactiva,
mas ela continua na sua com a sua brancura luminosa e teimosa sem me conceder a
mínima expectativa. Agora o que me dá ganas não é a miúda, mas sim o que ela
representa. A realidade do mundo acontece deste lado, do lado de fora da porta, onde
estou eu, onde estás tu, onde estamos todos nós, que preferimos o conforto da
palavra autista.
Agora para terminar, deixo-vos com mais umas
palavrinhas gastas.
Guankan-jima (Japan): the forbidden Island Fotografiaretiradadaqui
O mote para debitar umas linhas de
raciocínio escorreito, sequencial e ordenado até mostram vontade de se rebelarem contra o
sifão mental entupido, mas o cansaço e a preguiça do corpo, tendem a querer levar-me
a melhor.
É fácil de identificar o estado
arredio do meu espírito, sem disposição para ocupar o parco tempo e o
pensamento com os não assuntos que fazem a ordem do dia da urbe social.
A vida real é, por vezes, ou quase
sempre, dura e pesada. Está à vista para quem a quiser ver com olhos de ver, no
entanto quando enfrentada, como quem atreve os cornos de um touro bravo ou mete
os dedos na ferida, oferece-se perante nós numa caixa de chocolates sortidos
agridoces. Nunca se tem presente o resultado a curto prazo, nem a indumentária
de gala que a traja, mas a imagem panorâmica que se tem sobre o mapa, captada
ao radar de uma ave de rapina, permite-nos a capacidade da antever e desenvolver
estratégias de reacção e defesa. Mas será esta uma boa estratégia? Nos dias
correntes, já nem sei!
Entretanto, a dureza dos seus componentes físicos
e químicos tem dado corpo à minha rotina nos últimos tempos. O tempo contado ao
milímetro não permite o correcto desempenho da junta de dilatação, nem a
renovação de ar ventilado, e, o desgaste das engrenagens não se
compadece com desperdícios de energia que se impõe necessários para dar repouso ao corpo.
É imperativo descobrir a forma de como
dar folga às costas em proveito próprio. O estendal afectivo já não comporta o
peso de uma alma roubada, calejada e endurecida, que perdeu a motivação para
sonhar…
Mas todo este relambório, denso e
massudo, que depois de espremido não lhe sai pingo de sumo, foi despoletado por
conta de um vídeo de música que despertou a minha atenção num momento de pausa
kit-kat na companhia da minha filha caçoula. Deixei-me envolver pelo ritmo e
pela beleza dos corpos jovens e enérgicos que acompanham a música em
movimentos livres, espontâneos e sensuais. Deu-se em mim um click. Afinal aqui ainda
mora vontade. Afinal é possível superar este estado de cegueira catatónica.
Basta sacudir as asas, fazer log out, e entrar em modo de navegação automático.
Já reparaste Maria, no olhar mendigo estampado neste rosto macerado pelo rigor do frio! Até parece o meu, rapariga...
Pois é Maria, aqui a palhaça, só tem um papel a desempenhar no recheio da arena, o de servir e o de fazer rir o umbigo farto da plateia. Acontece Maria, que mesmo toda a arte de circo carece de colo e de abrigo para manter o brio…
Photographer and retoucher - Lauren Catherine - Kaigg Tropecei na areia, caí, furei a teia. Disse mal da vida! Tem dias que é fodida, ora dá, ora tira e ainda tece com ironia. RaisParta!