sábado, 2 de julho de 2016

Da Memória Intermitente

NOELL S. OSZVALD

O filamento incandescente da memória tem vindo a padecer de hiatos de intermitência entre as terras saudade e as terras do esquecimento. A ampulheta da cegueira partiu-se no meio do recheio do sótão desarrumado, deixando espalhados ao acaso os estilhaços do tempo da espera.
O fio do tempo desatou o nó da clausura, implodindo a cadeira vazia quase em estado de asfixia. Não lhe apetece escrever, não lhe apetece arrumar os cacos, não lhe apetece (re)lembrar, até porque isso implicaria repovoar a dor da saudade, mas também tem medo de esquecer e de cair no esquecimento, e a escuridão permanente está mesmo ali, na iminência de se instalar definitivamente.
À cautela, resta-lhe desligar o interruptor e acender uma vela no parapeito interior da janela, e, mais uma vez sabe que vai esperar que o destino fatídico se cumpra até à queda do último pingo de cera.

6 comentários:

  1. Sandra, ainda ontem estive a mirar esta bela foto.
    Há intermitências da memória que são terapêuticas, pelo poder de limpeza que operam na nossa mente.
    Há períodos em que não há disponibilidade para cumprir mais do que os serviços mínimos. Normalmente, sem nos apercebermos renovamos energias nessa fase.
    Gosto muito do que escreves e sinto falta de não te ter mais por aqui, mas sei que é importante respeitar os tempos.
    Gostei de te ler assim.
    Beijo grande

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  2. O texto é muito interessante, Sandra.
    (Já que é inevitável a queda do último pingo, talvez o melhor seja virar as costas à vela, ignorá-la, ousar olhar para lá do sótão...)

    Um beijinho :)

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  3. Às vezes quando me dói muito, a memória torna-se uma pedra no coração. E preferia não ter história. Mas depois pergunto, continuaria a ser eu sem as minhas cicatrizes?

    E tu, minha flor, és uma pessoa bonita. :)

    Deixo-te um beijo no coração. :)

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  4. Esperar será a melhor solução? Talvez se deva contrariar o destino fatídico...
    Um beijo grande nesse teu coração Sandra
    :)

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  5. Cada um sabe a hora de se deixar ir ou ficar.
    Texto belíssimo.

    Beijinho.

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