sexta-feira, 1 de maio de 2015

Vim porque me pagavam


























Título: The footworn shoes
Fotógtrafo: Irismanlost
Colecção: Flickr

E porque, hoje é o dia de homenagear o trabalhador, seleccionei para o efeito o poema de Golgona Anghel, "Vim Porque Me Pagavam", extraído do seu livro de poesia contemporânea com o mesmo nome.

"VIM PORQUE ME PAGAVAM,
e eu queria comprar o futuro a prestações.

Vim porque me falaram de apanhar cerejas
ou de armas de destruição em massa.
Mas só encontrei cucos e mexericos de feira,
metralhadoras de plástico, coelhinhos de Páscoa e pulseiras
de lata.

A bordo, alguém falou de justiça
(não, não era o Marx).
A bordo,  falavam também de liberdade.
Quanto mais morríamos,
mais liberdade tínhamos para matar.
Matava porque estavas perto,
porque os outros ficaram na esquina do supermercado
a falar, a debater o assunto.

Com estas mãos levantei a poeira
com que agora cubro os nossos corpos.

Com estas pernas subi dez andares
para assim te poder olhar de frente.

Alguém se atreve ainda a falar de posteridade?
Eu só penso em como regressar a casa;
e que bonito me fica a esperança
enquanto apresento em directo
a autópsia da minha glória".

Anghel, Golgona, Vim Porque Me Pagavam, Lisboa: Mariposa Azual, 2011.