terça-feira, 22 de março de 2016
segunda-feira, 14 de março de 2016
Dos mantos a retalho à pele que há em mim
![]() |
| Mercuro B. Cotto |
Dizem
que as palavras falam.
Há
quem diga que umas contam estórias,
outras
rejubilam actos heróicos nos gritos da vitória,
e
outras há, que calam histórias
no
silêncio da memória.
Agora,
tem dias que as minhas falas
são
que nem um punhado de areia seca
sem
fio de amarração.
Escorregam-se-me
por
entre os dedos da mão
e
caem por terra sem pé no chão.
Ainda
assim, nos dias assim-assim,
lá
me saltam algumas palavras da gaveta,
alinhavadas
uma-a-uma,
nas
entrelinhas da seda da minha teia.
E,
os mantos a retalho lá se tecem,
ora
doces, ora amargos
consoante
os âmagos
que
me despem.
Mas
todos os modelos me vestem.
(mesmo
os que se mostram
mais desajustados
e fora de prazo).
Uns
aconchegam-me
a
palavra ao corpo da alma,
outros,
no lugar do olhar, desenham-me
círculos
com buracos vazios.
E
mais há, aqueles modelitos mais coloridos,
que
sobreaquecem o vício do desejo
por
debaixo da pele;
que
ora me desperta o travesseiro
do
desassossego,
ora
me confunde a rosa dos ventos.
Por
fim, para além da pele que há em mim
ainda
me sobrevive o rasto
de um rosto marcado pela desilusão,
qual armadura mascarada na palavra não (con)sentida.
A tal indumentária que me capa
o
silêncio do grito agudo,
rasgado na ferida.
rasgado na ferida.
quarta-feira, 9 de março de 2016
Da flor da paixão
Imagem tirada daqui
Sempre que a lua
prenhe de ti
prenhe de ti
se vinha banhar à praia-mar,
conferia aquela nudez errante
a imagem cénica
de uma silhueta perfeita,
de uma silhueta perfeita,
esculpida nas ondas da areia.
Há quem diga que tal criatura
se afigura figura fictícia
com olhar de mulher madura
em semblante de menina.
Ficção ou talvez não,
quem a conhecia afirma,
que a paixão
todos os dias de lá vinha
adormecer o dia no parapeito da noite
adormecer o dia no parapeito da noite
para namorar as estrelas.
Em boa verdade,
quem bem a sentia
quem bem a sentia
sabia que naquela vida
não havia nenhuma outra janela
que lhe concedesse
tamanha alegria.
Agora, por acaso, alguém sabe
quem se atreveu ao rubor
que o seu corpo teceu?
quem se atreveu ao rubor
que o seu corpo teceu?
Dizem que o segredo daquela flor
nenhum olhar alguma vez bebeu!
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Palavra Autista
![]() |
| Jerry Uelsmann |
Ora aqui estou eu de fronte para uma folha de papel
virtual imaculada a lançar-lhe aquele olhar de matadora, mas a miúda, mais
teimosa que um jumento, ignora-me qualquer resposta. Só pode ser publicidade
enganosa, esta história dos olhos serem o espelho da alma. Nesta mesma medida
começo a duvidar da famosa teoria da brancura do algodão, que não engana.
Caramba, como esta luta em busca da conectividade é inglória. Estaremos perante
uma realidade turva que se mostra desajustada à visão semicerrada, que me dá
sempre jeito para filtrar impurezas?! Ou estaremos perante uma realidade de
paridade impraticável quando é claramente visível e evidente o princípio de
equidade?! Podemos também estar numa realidade alienígena, que nos olha como se fossemos
uns seres estranhos e aberrantes acabados de ser paridos da tendinha dos
horrores! Ou então, estamos definitivamente numa realidade mundial onde impera a cegueira autista.
Ora de volta ao início, aqui permaneço eu, queda e
serena (quase a bater no teclado) a tentar comunicar com a miúda interactiva,
mas ela continua na sua com a sua brancura luminosa e teimosa sem me conceder a
mínima expectativa. Agora o que me dá ganas não é a miúda, mas sim o que ela
representa. A realidade do mundo acontece deste lado, do lado de fora da porta, onde
estou eu, onde estás tu, onde estamos todos nós, que preferimos o conforto da
palavra autista.
Agora para terminar, deixo-vos com mais umas
palavrinhas gastas.
No silêncio de um olhar
dizem-se coisas maravilhosas
que as palavras
não têm capacidade de comportar.
As minhas estão gastas
e tu mundo,
lamentavelmente,
estás muito longe de mim...
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
Dos Instintos
![]() |
| Angela Buron |
Raios-te-partam homem,
que te divertes a jogar os sentimentos
num tabuleiro de xadrez
como se de peças inanimadas
se tratassem.
O xeque-mate acontece,
não se compadece,
desconhecida é a sorte
que se te tece.
desconhecida é a sorte
que se te tece.
De que te adianta ser,
um ser manipulador!
Já tu, felino, és bicho caçador.
Por norma traças o teu destino
pelo fio do instinto.
Ainda assim, emprestas-te
independente,
independente,
somente a quem queres,
e a quem te sente verdadeiramente.
O respeito e a desconfiança,
são as regras de base,
que estabelecem as tuas zonas de conforto
e que definem as tua margens
de segurança.
O felino, esse bicho sozinho,
só vira “bicho” e deita as garras de fora
quando ameaçado pelo perigo.
Já tu, homem,
ser vil e mesquinho,
por tudo e por coisa nenhuma
viras “bicho”.
E, pior que o bicho instintivo
só mesmo o bicho premeditado!
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
Da Palavra (In)Suficiente
Imagem tirada daqui
Admito que a palavra já não seja suficiente
para a alma que se quer gente.
Talvez tenha perdido a voz,
ou talvez se tenha perdido pelo caminho
no encalço da frequência da onda.
É impossível remar o vazio,
não há atrito de catapulta,
que permita combater a corrente do vício.
Perante a surdez do umbigo,
a palavra não carece de ser gasta
nem tão pouco de ser desperdiçada,
até porque,
o ruído engasgado do disco riscado
é por demais incomodativo
ao ouvido mais “delicado”.
ao ouvido mais “delicado”.
A palavra já não é suficiente
diz a gente que se entende boa gente.
E, quando não se basta,
a porta do Silêncio
é o Grito da morada mais acertada.
domingo, 17 de janeiro de 2016
Dia(s) Comprido(s)
![]() |
| Mercuro B. Cotto |
Sentou-se no sofá, fez “zapping”, levantou-se, deitou-se a ler um livro no terraço, fumou
uns poucos de cigarros, fez uns quantos de carreiros pela casa. Mas que raio de
dia comprido que nunca mais acaba!
Cansada de fugir e de se esconder atrás daquela
ansiedade que a persegue, saiu em marcha acelerada em direcção à Marina do
Freixo. Caminhou um pouco para anestesiar a alma e cansar o corpo, mas a brisa do
fim de tarde estava fria e incentivou-a à entrada no bar para tomar uma bebida
aquecida. Procurou o aconchego para o seu desassossego no chocolate negro e no
cigarro, o seu amigo e fiel companheiro. Ali, na companhia do rio, da lua e de
mais um punhado de gente desconhecida, enroscada no seu pensamento
e consciente de que a vida lhe vai concedendo algumas nesgas de tempo, descobre
que afinal, ainda não está totalmente disponível para si.
Subscrever:
Mensagens (Atom)






