quarta-feira, 10 de junho de 2026

Uma rua não é uma estrada, é um ser vivo como eu

Imagem extraída do Pinterest

Era uma vez uma Rua que vivia numa grande cidade. Hoje, o culto da indumentária automóvel tornou-a indistinguível de tantas outras ruas que habitam essa cidade ou qualquer outra localidade.


As ruas não são estradas. Porém, na actualidade, vestem-se como tal. O automóvel conquistou protagonismo sobre o peão, subvertendo a hierarquia da condição humana e roubando espaço à permanência, ao encontro e à convivência. A dependência do carro, porta a porta, apresenta-se como um direito adquirido, instalado na mentalidade colectiva como um vício consentido e institucionalizado.
E a dependência sistemática é um vício. Uma doença socialmente aceite que, neste contexto de urbanidade, empobrece a qualidade de vida das comunidades. Fragiliza as relações familiares e sociais, afecta a saúde física e mental e contribui para a degradação dos ecossistemas. As suas repercussões estendem-se aos sistemas ecológico, bio-natural, ambiental e climático do planeta que, afinal, é apenas a casa de todos nós.


A urbe é um organismo vivo, complexo e em permanente transformação. Os edifícios e os espaços-canal onde estes se apoiam constituem uma unidade indissociável, uma relação de coexistência mútua que molda a identidade e o funcionamento da cidade.
Numa perspectiva mais romântica, as ruas são fontes de vida. São lugares onde o mundo acontece, onde circula a energia que alimenta o corpo e inspira a alma das cidades. E uma cidade com alma vive de gente com alma dentro. Gente responsável, que cuida de si, dos outros, do seu lar e do lar comum que partilha com a comunidade.
Uma sociedade assente na entrega, no respeito e na dedicação dá corpo a uma cidade saudável, equilibrada, segura e amiga do ambiente — uma cidade bio-climatizada, bio-diversificada e funcionalmente harmoniosa. Uma cidade bonita e aprazível convida ao encontro, educa para as boas práticas de lazer e fortalece as relações familiares, sociais e comunitárias. Aproxima-nos da natureza na sua essência e devolve ao automóvel o papel que lhe pertence: o de meio de transporte mecanizado, utilizado de forma racional e, preferencialmente, ao serviço da mobilidade colectiva.


Mas a realidade está longe desta visão poética.


A urbanidade encontra-se afundada num oceano de lata, transitável e estacionário, que irriga as cidades com substâncias tóxicas. As ruas adoecem. O ar torna-se pesado. Crescem a intolerância, a irritabilidade e a indisponibilidade para o outro. As relações familiares, de vizinhança, sociais e profissionais deterioram-se silenciosamente.
Hoje, muitas ruas vivem de costas voltadas para o mundo. E a sua gente vive à margem da própria vida, numa correria desenfreada contra o tempo, de olhos postos no conforto individual e no protagonismo social.
Continuamos presos a velhos hábitos profundamente enraizados. Com demasiada frequência, confundimos prosperidade com ostentação e sucesso com demonstração de poder. A necessidade de afirmação do ego cresce na mesma medida em que empobrece a consciência colectiva.
Comportamento após comportamento, escolha após escolha, a engrenagem vital desta grande máquina entrou em falência. E conduziu-nos ao estado actual de emergência bio-climática, aproximando-nos perigosamente de um ponto de quase não retorno.
Não sei se ainda haverá tempo para inverter este caminho, mesmo que devolvamos às ruas a vida e o pulmão que lhes foi retirado.


Também não sei como expressar plenamente este sentimento de impotência. Durante muito tempo olhei para as ruas, mas não as via. Não as via com o olhar de sentir. Não as reconhecia como seres vivos, naturais e orgânicos, que agora sei que são.
E um ser vivo, tal como eu, precisa de colo, de amor e de cuidado. Precisa de energia positiva para crescer, evoluir, gerar boas sementes e bons frutos. Precisa, acima de tudo, de transmitir um legado digno às gerações que lhe sucedem.


Embora me considere uma pessoa sensível e aberta aos processos criativos que desafiam os modelos estabelecidos, também eu fui moldada pela visão clássica do espaço urbano que a norma institucionalizou durante décadas.


Sei que não sou filha única neste enredo. Somos muitos os actores deste palco. Mas também sei que cada um de nós pode ser um agente de contágio positivo. E que, juntos, enquanto agentes activos de mudança, podemos inspirar novas formas de pensar, desenhar e viver a cidade.


Não deixo promessas.
Mas assumo uma missão.


A missão de devolver vida às ruas, para que as ruas possam devolver vida às pessoas.


sábado, 30 de agosto de 2025

Enredos

Imagem extraída do Pinterest

 























nós queríamos,

nós até podíamos.

mas por cobardia 

não nos deixámos acontecer.

hoje choramos

o medo que nos fez perder,

medo, ou outra cena qualquer,

hoje, tanto faz.

certo é que,

a vontade, o desejo, não se fez sonho

nem outro enredo qualquer 

chamado de realidade. 


sábado, 14 de junho de 2025

O Amor e o seu Abismo















Imagem extraída do Pinterest


Meu Amor, não lamentes o sonho nem a espera do que não foi e podia ter sido.

O silêncio nada mais é que uma armadura de protecção contra emoções intempestivas e palavras mal atiradas no calor da ausência de um sentimento maior.

O sentimento maior vive na saudade de afectos genuínos, e não em palavras vãs e ocas, onde as promessas são o que são, promessas que não resistem ao tempo, à distância e ao silêncio consciente e premeditado.

Mas sem essa consciência, não estamos perante o Amor. Estamos perante uma potencial conquista ou uma vaidade, de cuja substância, não resulta dor, desespero ou frustração. Simplesmente, não há nada. O Vazio consegue maior protagonismo, até porque as Estórias de Amor Incondicionais entre pares permanecem imortais no seu Abismo.


sexta-feira, 25 de abril de 2025

A Liberdade e a Liberdade



A Liberdade é um Ser frágil admirável, que nem uma flor que brota pujante na Primavera, quando cuidada e alimentada o ano inteiro. 

O coração da nossa Jardineira, Celeste Caeiro, sem o saber já o sabia e baptizou a nossa Liberdade, com a nossa flor sazonal, de corte, o Cravo. 
Sem Ela, a nossa Liberdade não seria bonita, singela, tão pouco perfumada, seria apenas uma memória, quiçá intimidatória, da ocupação militar do Largo do Carmo com carros blindados e soldados, em 25/04/1974. 

Acontece que, sem respeito e sem responsabilidade a nossa Mulher Liberdade defraudada, definha e sem capacidade de se defender é usurpada a favor de valores menores. 

Portanto, caríssimos, alimentem e comemorem a Liberdade como se fosse Natal, todos os dias em vossas casas! 


Aproveito ainda este dia, que marca 51 anos de Liberdade no nosso país, para homenagear, Jorge Mario Bergoglio, o Ser, o Homem, o Grão Mestre Jardineiro do povo e do mundo inteiro, que nos deixou um legado extraordinário de Bem-Querer a favor do Bem Comum. 

Façam por serem felizes e por fazerem outros felizes. 

Beijinhos e Abraços 

Sandra


terça-feira, 16 de agosto de 2022

O Meu Zé, 11/08/1941 - 13/08/2022



Faz muito tempo que não escrevo para mim!
No entanto, esta Tua nova viagem não poderia deixar de passar despercebida numa folha de papel vazia.

Viveste sempre de forma ousada, nunca gostaste da rotina! Essa senhora para ti, foi sempre uma figura de estilo muito aborrecida. A vida sempre te foi uma montanha russa, carregada de adrenalina. O fio da navalha foi sempre a tua ilha de conforto.

És um ser especial, fora do padrão normal que está instituído, as tuas particularidades, o teu trato fino, delicado e educado, e o teu olhar malandro, cativaram e encantaram, até mesmo, no período de maior fragilidade e dependência. 
Viveste sempre rodeado de beleza e de juventude, foste e és um homem abençoado!

Sabes Zé, tem dias que viver é a sorte da lotaria, outros dias há, que viver é sobreviver a cada dia, mas tu, mesmo nos altos e baixos, nunca baixaste a guarda, abraçaste a vida com as tuas particularidades, e foste feliz à tua maneira.
 
És o primeiro Homem que Amei, Amo e Admiro. Herdei as tuas raízes, o teu berço, o teu trato fino e delicado, e, muitas das tuas particularidades. E s
abes Zé, foi a herança mais rica e mais bonita que me podias ter deixado. O teu legado vive comigo e acompanha-me sempre para todo o lado.

Tu e a Mãe, apesar dos arrufos de namorados, fizeram um excelente trabalho. Eu, enquanto vossa filha, sou um pouco de ambos, e, tenho-me como boa gente e como uma boa semente. Prometo honrar-vos e não deixar-vos mal, enquanto memória minha houver.
 
Agora, tenho duas coisitas a pedir-te, Zé, quando te encontrares com a Tua Mãe, manda-lhe um beijo meu e diz-lhe que tenho muitas, mas muitas saudades dela. E, quando estiveres com a Minha Mãe, diz-lhe que cumpri a promessa que lhe fiz de cuidar de ti, e manda-lhe também um beijo meu.
 
Por fim Zé, hoje conseguiste realizar um feito notável. Tu que és todo anti padrões e convenções, reuniste a família toda ao mesmo tempo para te cumprimentar e para te desejar uma boa viajem.
 
Não gosto de despedidas, nem de momentos tristes, nunca gostei, assim como tu.
Deixo entre nós umas reticências de saudade e de bem-querer, e já sabes que levas contigo o meu orgulho de ser tua filha.

Fica um beijo meu, um beijo nosso, um beijo de todos.
Nós por cá, os teus filhos e as tuas netas, ficamos bem.
Faz a tua jornada em paz, e, cá estamos até ao teu regresso!
 
A tua filha, Xana.

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Maria Boneca – Capítulo I

Sentada na cadeira de baloiço, herança de sua avó paterna, simplesmente se quer só.
Embalada no tempo talhado daquela madeira maciça, a mesma dureza que lhe deu corpo à alma e lhe cristalizou o medo, esconde-se do mundo e deixa-se em espera. 
De olhos postos na janela e na porta do seu recanto, não ouve, não fala, não quer saber de nada, nem de ninguém, limitando-se ao gesto do balanço lento, em defensivas programadas. Sabe e sente que está para breve o presente do tão esperado momento. A brisa passou-lhe pela janela e materializou o Senhor que permanece do lado de fora à espera da sua mão aberta.
Sabe que após a batida da porta, lhe esperam uns vincos acentuados e uns quantos fios brancos a acrescentar ao seu olhar, e, sabe também que nunca há-de perder o sereno, mesmo que ao abrir da porta, se veja Maria Boneca morta.