quarta-feira, 9 de março de 2016

Da flor da paixão























Imagem tirada daqui

Sempre que a lua 
prenhe de ti
se vinha banhar à praia-mar,
conferia aquela nudez errante 
a imagem cénica 
de uma silhueta perfeita, 
esculpida nas ondas da areia.
Há quem diga que tal criatura 
se afigura figura fictícia
com olhar de mulher madura 
em semblante de menina.
Ficção ou talvez não,
quem a conhecia afirma, 
que a paixão 
todos os dias de lá vinha 
adormecer o dia no parapeito da noite
para namorar as estrelas.
Em boa verdade, 
quem bem a sentia
sabia que naquela vida 
não havia nenhuma outra janela 
que lhe concedesse 
tamanha alegria.
Agora, por acaso, alguém sabe 
quem se atreveu ao rubor 
que o seu corpo teceu?
Dizem que o segredo daquela flor
nenhum olhar alguma vez bebeu!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Palavra Autista

Jerry Uelsmann
























Ora aqui estou eu de fronte para uma folha de papel virtual imaculada a lançar-lhe aquele olhar de matadora, mas a miúda, mais teimosa que um jumento, ignora-me qualquer resposta. Só pode ser publicidade enganosa, esta história dos olhos serem o espelho da alma. Nesta mesma medida começo a duvidar da famosa teoria da brancura do algodão, que não engana. Caramba, como esta luta em busca da conectividade é inglória. Estaremos perante uma realidade turva que se mostra desajustada à visão semicerrada, que me dá sempre jeito para filtrar impurezas?! Ou estaremos perante uma realidade de paridade impraticável quando é claramente visível e evidente o princípio de equidade?! Podemos também estar numa realidade alienígena, que nos olha como se fossemos uns seres estranhos e aberrantes acabados de ser paridos da tendinha dos horrores! Ou então, estamos definitivamente numa realidade mundial onde impera a cegueira autista.
Ora de volta ao início, aqui permaneço eu, queda e serena (quase a bater no teclado) a tentar comunicar com a miúda interactiva, mas ela continua na sua com a sua brancura luminosa e teimosa sem me conceder a mínima expectativa. Agora o que me dá ganas não é a miúda, mas sim o que ela representa. A realidade do mundo acontece deste lado, do lado de fora da porta, onde estou eu, onde estás tu, onde estamos todos nós, que preferimos o conforto da palavra autista.
Agora para terminar, deixo-vos com mais umas palavrinhas gastas.

No silêncio de um olhar
dizem-se coisas maravilhosas
que as palavras
não têm capacidade de comportar.
As minhas estão gastas
e tu mundo,
lamentavelmente,
estás muito longe de mim...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Dos Instintos

Angela Buron
Raios-te-partam homem,
que te divertes a jogar os sentimentos
num tabuleiro de xadrez
como se de peças inanimadas
se tratassem.
O xeque-mate acontece,
não se compadece,
desconhecida é a sorte 
que se te tece.
De que te adianta ser,
um ser manipulador!
Já tu, felino, és bicho caçador.
Por norma traças o teu destino
pelo fio do instinto.
Ainda assim, emprestas-te 
independente,
somente a quem queres,
e a quem te sente verdadeiramente.
O respeito e a desconfiança,
são as regras de base,
que estabelecem as tuas zonas de conforto
e que definem as tua margens
de segurança.
O felino, esse bicho sozinho, 
só vira “bicho” e deita as garras de fora
quando ameaçado pelo perigo.
Já tu, homem,
ser vil e mesquinho,
por tudo e por coisa nenhuma
viras “bicho”.
E, pior que o bicho instintivo
só mesmo o bicho premeditado!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Da Palavra (In)Suficiente

Imagem tirada daqui

Admito que a palavra já não seja suficiente
para a alma que se quer gente.
Talvez tenha perdido a voz,
ou talvez se tenha perdido pelo caminho
no encalço da frequência da onda.
É impossível remar o vazio,
não há atrito de catapulta,
que permita combater a corrente do vício.
Perante a surdez do umbigo,
a palavra não carece de ser gasta
nem tão pouco de ser desperdiçada,
até porque,
o ruído engasgado do disco riscado
é por demais incomodativo 
ao ouvido mais “delicado”.
A palavra já não é suficiente
diz a gente que se entende boa gente.
E, quando não se basta,
a porta do Silêncio
é o Grito da morada mais acertada.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Dia(s) Comprido(s)

Mercuro B. Cotto
Sentou-se no sofá, fez “zapping”, levantou-se, deitou-se a ler um livro no terraço, fumou uns poucos de cigarros, fez uns quantos de carreiros pela casa. Mas que raio de dia comprido que nunca mais acaba!
Cansada de fugir e de se esconder atrás daquela ansiedade que a persegue, saiu em marcha acelerada em direcção à Marina do Freixo. Caminhou um pouco para anestesiar a alma e cansar o corpo, mas a brisa do fim de tarde estava fria e incentivou-a à entrada no bar para tomar uma bebida aquecida. Procurou o aconchego para o seu desassossego no chocolate negro e no cigarro, o seu amigo e fiel companheiro. Ali, na companhia do rio, da lua e de mais um punhado de gente desconhecida, enroscada no seu pensamento e consciente de que a vida lhe vai concedendo algumas nesgas de tempo, descobre que afinal, ainda não está totalmente disponível para si.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Estação de São Bento

Titulo: Railway Station Clock - Estação de São Bento - Porto
Fotógtrafo: Leonardo Patrizi
Colecção: E+
Já reparaste rapariga! Ainda ontem era Dezembro e pelo andar da carruagem amanhã Dezembro será!
Caramba, como um ano passa depressa, e a gente nem se dá conta! Também não admira, quando a unidade de medida se limita à contagem de uns míseros 31 dias…
Pois é! Mas enquanto o resto do tempo levanta voo, nós, os comuns mortais, cortamos caminho em sentido contrário como quem dobra o tempo na força do braço de ferro. Para além de que, como seres umbilicais e petulantes que somos, fazemos tábua rasa da nossa condição frágil e humana, tomamos como adquirido a nossa maior importância, e não lhe reservamos, ao tempo, um lugar sentado ao nosso lado durante a viagem.
Sabes rapariga! Quiçá amanhã, a traça da Estação de Dezembro se faz modelo, e contagia a traça das demais Estações e Apeadeiros que nos contam de Janeiro ao resto do ano inteiro. Quiçá, um dia até perdemos o medo e abrimos a mão, e o coração, e abraçamos a vida conforme ela é nos é servida no prato do dia, e aí talvez, o tempo até seja generoso connosco e nos concede um par de asas para rasgarmos o ar a seu par.

E agora para terminar, e como estamos na recta final do itinerário anual, que é sorvida como se não houvesse amanhã como se fosse a única paragem digna de festejo do ano inteiro, deixo-vos na companhia da “Estação de São Bento”, a estação de eleição da minha Cidade Invicta. O belo poema de Henrique Manuel Bento Fialho extraído do seu livro de poesia contemporânea “Estação 2012” publicado pela Mariposa Azual.

“Não queremos ver o que se esconde dentro da névoa.
Fecharmos os olhos, manearmos a cabeça,
para não vermos o que, supomos, se esconde dentro da névoa.
Num dia de Primavera, com a chuva a levantar da terra
o cheiro das coisas em decomposição.
Ao fundo por cima das árvores, as nuvens bailando,
fazendo tremer os dias. Ele estava triste em 1974.
Ninguém compreenderá este cansaço silencioso
com que acordamos todos os dias para a morte,
os dois, estranhamente separados pelo tempo,
talvez por esse mesmo tempo que se esconde dentro da névoa
e que nós não queremos ver, não queremos entender.
Olho, do outro lado da rua, a roupa esvoaçando num estendal.
Há uma tristeza que se anuncia na forma delicada
com que olhamos, os dois, estas coisas.
Um fio de sangue a escorrer-nos dos olhos,
um fim doloroso à nossa espera, um sonho errante.
Em silêncio te digo, descansa em paz os teus tormentos.
Breve, voltaremos a cheirar a terra que ora se levanta.”

Por fim peço-vos; relevem o meu estado de espírito aziado, e mais vos peço que nunca se esqueçam que a vida é um presente digno de ser desembrulhado com entusiasmo todos os dias do ano, independentemente dos rigores e das adversidades do tempo que nos vão queimando às prestações..
Resumindo e baralhando, façam por serem felizes e por fazerem alguém feliz. Quanto a mim apenas vos digo que vos guardo e vos estimo na minha teia o ano inteiro, e por isso desejo-vos tudo de bom e assim.

Beijos e Abraços

Sandra

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O café está na mesa.
























Enquanto ele levantava a mesa, colocava os pratos, os copos e os talheres na bancada, ela ia adiantando serviço, lavando a louça de costas voltadas à mesa da cozinha onde tinham terminado o jantar.
(Apesar de terem maquina de lavar louça, ela insiste em lavar a louça à mão, manias!)
Ora continuando. Ainda lhes faltava tomar o café.
A tirada do café ao fim das refeições, quando partilhadas em casa, entre outras actividades caseiras, são sempre executadas por ele, não por imposição, mas porque fora acontecendo no tempo de forma natural e espontânea. Ainda assim, quantas vezes, cada um deles rezinga por entre os dentes, o reclamar por ter que fazer todos os dias, sempre as mesmas tarefas domésticas que lhe são afectas.
- O café está na mesa. Acabas de lavar a louça ao fim.
Mas ela como detesta deixar a meio o que tem em mãos, continuou a enxaguar os últimos copos.
- Raça de mulher! Não me adianta falar!
Ela olhou para trás, deitou-lhe aquele olhar sorriso de desafio, e absteve-se de comentar.
-Também gosto muito de ti. Acrescentou ele em tom de resposta ao seu silêncio teimoso, que o incomoda de sobremaneira. Ainda insatisfeito continuou a argumentar.
- E tu sabes. Tu sabes bem que gosto muito de ti, mais até do que devia. Ás vezes, nem metade merecias.
Ela voltou-se, secou as mãos, sentou-se na mesa à frente dele, olhou-o nos olhos, e, com toda a calma do mundo, rematou.
- Com que então, nem metade mereço?! Olha cá, metade é muito pouco e o dobro também não me é suficiente.
Ele deu-lhe um sorriso franco, de quase vitória e remedou.
- O que acabaste de dizer é tão bonito que tens que escrever.

"Et voila", foi o que, acabei de fazer.

O café quando se bebeu ainda estava no ponto, apesar do mau tempo ;)


Olha Isabel, acho que casei bem as minhas palavras com esta musica linda :)