Ora aqui estou eu de fronte para uma folha de papel
virtual imaculada a lançar-lhe aquele olhar de matadora, mas a miúda, mais
teimosa que um jumento, ignora-me qualquer resposta. Só pode ser publicidade
enganosa, esta história dos olhos serem o espelho da alma. Nesta mesma medida
começo a duvidar da famosa teoria da brancura do algodão, que não engana.
Caramba, como esta luta em busca da conectividade é inglória. Estaremos perante
uma realidade turva que se mostra desajustada à visão semicerrada, que me dá
sempre jeito para filtrar impurezas?! Ou estaremos perante uma realidade de
paridade impraticável quando é claramente visível e evidente o princípio de
equidade?! Podemos também estar numa realidade alienígena, que nos olha como se fossemos
uns seres estranhos e aberrantes acabados de ser paridos da tendinha dos
horrores! Ou então, estamos definitivamentenuma realidade mundial onde impera a cegueira autista.
Ora de volta ao início, aqui permaneço eu, queda e
serena (quase a bater no teclado) a tentar comunicar com a miúda interactiva,
mas ela continua na sua com a sua brancura luminosa e teimosa sem me conceder a
mínima expectativa. Agora o que me dá ganas não é a miúda, mas sim o que ela
representa. A realidade do mundo acontece deste lado, do lado de fora da porta, onde
estou eu, onde estás tu, onde estamos todos nós, que preferimos o conforto da
palavra autista.
Agora para terminar, deixo-vos com mais umas
palavrinhas gastas.
Sentou-se no sofá, fez “zapping”, levantou-se, deitou-se a ler um livro no terraço, fumou
uns poucos de cigarros, fez uns quantos de carreiros pela casa. Mas que raio de
dia comprido que nunca mais acaba!
Cansada de fugir e de se esconder atrás daquela
ansiedade que a persegue, saiu em marcha acelerada em direcção à Marina do
Freixo. Caminhou um pouco para anestesiar a alma e cansar o corpo, mas a brisa do
fim de tarde estava fria e incentivou-a à entrada no bar para tomar uma bebida
aquecida. Procurou o aconchego para o seu desassossego no chocolate negro e no
cigarro, o seu amigo e fiel companheiro. Ali, na companhia do rio, da lua e de
mais um punhado de gente desconhecida, enroscada no seu pensamento
e consciente de que a vida lhe vai concedendo algumas nesgas de tempo, descobre
que afinal, ainda não está totalmente disponível para si.
Titulo: Railway Station Clock - Estação de São Bento - Porto
Fotógtrafo: Leonardo Patrizi Colecção: E+
Já reparaste rapariga! Ainda ontem era Dezembro e
pelo andar da carruagem amanhã Dezembro será!
Caramba, como um ano passa depressa, e a gente nem se
dá conta! Também não admira, quando a unidade de medida se limita à contagem de
uns míseros 31 dias…
Pois é! Mas enquanto o resto do tempo levanta voo,
nós, os comuns mortais, cortamos caminho em sentido contrário como quem dobra o tempo na força do braço de ferro. Para além de que, como seres
umbilicais e petulantes que somos, fazemos tábua rasa da nossa condição frágil e humana,
tomamos como adquirido a nossa maior importância, e não lhe reservamos, ao tempo, um lugar sentado ao nosso lado durante a viagem.
Sabes rapariga! Quiçá amanhã, a traça da Estação de
Dezembro se faz modelo, e contagia a traça das demais Estações e Apeadeiros que
nos contam de Janeiro ao resto do ano inteiro. Quiçá, um dia até perdemos o
medo e abrimos a mão, e o coração, e abraçamos a vida conforme ela é nos é servida
no prato do dia, e aí talvez, o tempo até seja generoso connosco e nos concede
um par de asas para rasgarmos o ar a seu par.
E agora para terminar, e como estamos na recta final do itinerário anual,
que é sorvida como se não houvesse amanhã como se fosse a única paragem digna de festejo do ano inteiro, deixo-vos na companhia da “Estação
de São Bento”, a estação de eleição da minha Cidade Invicta. O belo poema
de Henrique Manuel Bento Fialho extraído do seu livro de poesia contemporânea “Estação 2012” publicado pela Mariposa
Azual.
“Não queremos
ver o que se esconde dentro da névoa.
Fecharmos os
olhos, manearmos a cabeça,
para não vermos
o que, supomos, se esconde dentro da névoa.
Num dia de
Primavera, com a chuva a levantar da terra
o cheiro das
coisas em decomposição.
Ao fundo por
cima das árvores, as nuvens bailando,
fazendo tremer
os dias. Ele estava triste em 1974.
Ninguém
compreenderá este cansaço silencioso
com que
acordamos todos os dias para a morte,
os dois,
estranhamente separados pelo tempo,
talvez por esse
mesmo tempo que se esconde dentro da névoa
e que nós não
queremos ver, não queremos entender.
Olho, do outro
lado da rua, a roupa esvoaçando num estendal.
Há uma tristeza
que se anuncia na forma delicada
com que
olhamos, os dois, estas coisas.
Um fio de
sangue a escorrer-nos dos olhos,
um fim doloroso
à nossa espera, um sonho errante.
Em silêncio te
digo, descansa em paz os teus tormentos.
Breve,
voltaremos a cheirar a terra que ora se levanta.”
Por fim peço-vos; relevem o meu estado de espírito
aziado, e mais vos peço que nunca se esqueçam que a vida é um presente digno de
ser desembrulhado com entusiasmo todos os dias do ano, independentemente dos
rigores e das adversidades do tempo que nos vão queimando às prestações..
Resumindo e baralhando, façam por serem felizes e por
fazerem alguém feliz. Quanto a mim apenas vos digo que vos guardo e vos estimo na minha teia o ano
inteiro, e por isso desejo-vos tudo de bom e assim.
Enquanto
ele levantava a mesa, colocava os pratos, os copos e os talheres na bancada,
ela ia adiantando serviço, lavando a louça de costas voltadas à mesa da cozinha
onde tinham terminado o jantar.
(Apesar
de terem maquina de lavar louça, ela insiste em lavar a louça à mão, manias!)
Ora
continuando. Ainda lhes faltava tomar o café.
A
tirada do café ao fim das refeições, quando partilhadas em casa, entre outras
actividades caseiras, são sempre executadas por ele, não por imposição, mas
porque fora acontecendo no tempo de forma natural e espontânea. Ainda assim,
quantas vezes, cada um deles rezinga por entre os dentes, o reclamar por ter que
fazer todos os dias, sempre as mesmas tarefas domésticas que lhe são afectas.
- O café está na mesa. Acabas de lavar a louça ao fim.
Mas
ela como detesta deixar a meio o que tem em mãos, continuou a enxaguar
os últimos copos.
- Raça
de mulher! Não me adianta falar!
Ela
olhou para trás, deitou-lhe aquele olhar sorriso de desafio, e absteve-se de
comentar.
-Também
gosto muito de ti. Acrescentou ele em tom de resposta ao seu silêncio teimoso, que o incomoda de
sobremaneira. Ainda insatisfeito continuou a argumentar.
- E tu
sabes. Tu sabes bem que gosto muito de ti, mais até do que devia. Ás vezes, nem
metade merecias.
Ela
voltou-se, secou as mãos, sentou-se na mesa à frente dele, olhou-o nos olhos, e,
com toda a calma do mundo, rematou.
- Com
que então, nem metade mereço?! Olha cá, metade é muito pouco e o dobro também não me é
suficiente.
Ele
deu-lhe um sorriso franco, de quase vitória e remedou.
- O
que acabaste de dizer é tão bonito que tens que escrever.
"Etvoila", foi o que, acabei de fazer.
O
café quando se bebeu ainda estava no ponto, apesar do mau tempo ;)
Olha Isabel, acho que casei bem as minhas palavras com esta musica linda :)