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segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Dá a surpresa de ser

Mercuro B. Cotto

























Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.

É a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?

Fernando Pessoa
[Lisboa, 1888-1935]


domingo, 5 de junho de 2016

Vanilla Dreams

Fotografia de M. Inês Louçano
I'm in heaven, 
lying on cotton candy clouds 
tasting vanilla dreams;
So, do me a favor, 
don’t wake me up!




The Game 

Come, let us play a game, little boy,
To while the world away.
What shall be – tell me – our harmless toy?
At what shall we play?

Shall we play – shall we? – at being great?
No, nor at being grand.
Shall we believe that we are Fate
And make up lives out sand?

No, little boy, we will play that we are
Happy, and that we are gay;
Let us pretend we are dreams, very far
From the world in which we play.

*Alexander Search
January 2nd. 1908


***
(TRAD.)

O Jogo

Anda, rapaz, deixa o mundo real,
Vamos jogar um jogo.
O que será – diz lá – brincadeira sem mal?
A que jogamos logo?

Vamos brincar - que tal – a quem é o mais forte?
Não, nem ao mais valente
Fingimos que somos a Sorte
E do pó fazemos gente?

Não, rapaz, afinal jogamos antes
A tão contentes que estamos;
Fingimos que somos sonhos, distantes
Deste mundo em que brincamos.

*Alexander Search
2 de Janeiro de 1908


*um dos 136 autores fictícios de Fernando Pessoa 
Poema extraído da edição de Jerónimo Pizarro e Patrício Ferrari - Tinta da China

Eu sou uma antologia
136 autores fictícios 
Fernando Pessoa

*Alexander Search, a mais prolífera figura literária do universo pessoano antes do mês «triunfal» de Março de 1914. Terá nascido em Lisboa a 13 de Junho de 1988, isto é na mesma cidade e na mesma cidade que Fernando Pessoa. Terá surgido na mente de Pessoa em 1906, ano em que começa a herdar os poemas antes atribuídos a Charles Robert Anon.(…)
«A Search» ou «Alex. Search», como assina alguns textos, foi uma figura poliglota, essencialmente activa entre 1906 e 1911. Porem o seu nome cionsta ainda de um plano literário de 1914, as suas iniciais surgem num cabeçalho de uma entrevista a *Alberto Caeiro – redigida em português e realizada e Espanha, onde esteve Search – , e é, uma vez mais, citando num plano editorial tardio, posterior a 1932.

domingo, 1 de novembro de 2015

Portas

Francesca Woodman



















Uma porta ainda que fechada,
tem frinchas,
tem a ranhura da fechadura,
e mais tem as fissuras do tempo.
Mesmo que de chave perdida,
há sempre forma de transpor a ferida.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Matilha

Francesca Woodman

















Há quem prefira o resultado imediato e os aplausos do palco mediático. Há quem prefira a acção / reacção em constante ebulição. Paixão ou talvez não, há quem queira mesmo só, vontade de emoção. Injecção de adrenalina constante, atenção, devoção, 24 horas sobre rodas.
Note-se que neste enquadramento pictórico, quase ninguém repara nos olhos vidrados nem na fundura das olheiras negras resultantes das mil e uma noites mal dormidas. Matilha maldita que de dia está mal acordada para a vida, quais olhos trôpegos de anestesia, qual postura corcunda sempre firme e hirta.
Por outro lado, há quem prefira o resultado que decorra do acto praticado no tempo. Há quem prefira dar alimento a um sentimento que cresce lento, ganha corpo e se instala dentro intenso.
Há quem prefira querer ter, há quem prefira querer ser…
E, há a matilha que não sabe o que quer.


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Os dois lados da janela...

Mercuro B. Cotto

Depois da queda,
quando o céu se une à terra,
a linha do horizonte perde
a sua silhueta cardíaca;
a luz enverga
a seda das trevas,
e o inverno
sobrepõe-se à primavera.

Só depois da queda,
quando se agudiza a dor da perda,
dá-se conta afinal,
que as estrelas
mostram muito mais brilho
quando miradas
do lado de cá da janela.

Mas só depois da queda,
só depois da queda!

sábado, 12 de setembro de 2015

Tempo suspenso

Mercuro B. Cotto



















Eles sabem que aquela inquietude que sentem por debaixo da pele respeita a um amor que não lhes pertence. O instinto de preservação daquele querer para além do seu próprio ser, sob pena de morte prematura, levou-os a pendurar a pele na cruzeta casta do tempo suspenso, na esperança de um dia poderem ver liberada aquela vontade amordaçada.

domingo, 16 de agosto de 2015

Embrulho

Mercuro B Cotto


















Queria tanto escrever-te uma carta de amor, 
uma daquelas ridículas 
que falam do silêncio, do grito,
da saudade e da dor.
Mas o cansaço é tanto que a veia de tão seca 
já não dança a fina pena da linha afectiva 
na teia da seda.
Só me resta desembrulhar-me no teu olhar, 
encaixar-me no teu colo ventre quente âmbar,
e continuar a esperar-te todos os dias a cada acordar. 
Agora faz de mim um embrulho bonito
e leva-me contigo nas asas do vento 
para terras de além-mar.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Enredos de Palco























Francesca Woodman

Não te agastes meu querido,
tudo aquilo foram meras manobras de diversão
que nos desviaram o ser
e a nossa essência de rectidão.
Foi na dança de marfim,
entre véus
e marionetas,
que o jogo de conquista
se perdeu a favor das peças espertas.
Nada nos enganou, nada nos feriu,
nada nos tolheu o discernimento e a razão
com iras desmedidas,
tamanhas foram as histórias,
as mentiras,
e as sedes loucas e famintas
que ficaram por beber.
E neste eterno perder
sente-se falta de ter à mão
o tempo que foi
antes do dia amanhecer.
Neste rigor quero-te,
mas não assim,
nesta parca existência de mim,
da qual me resto rasto do perfume do jasmim
que tens plantado no teu jardim.
Hoje demito-me do estrelato
deste enredo de palco,
e saio de olhar acima do meu nariz empinado,
dando como encerrado o primeiro capitulo do nosso livro
que ainda não se fez prova de escrito vivo.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Silhueta do medo

Francesca Woodman

Ele sabe que por detrás daquele olhar sereno, doce e meigo mora uma mente aberta de alma inquieta, cativa e borboleta. Ele sabe também que aquela silhueta de gazela, nudez frágil de seda pálida, macia e quase casta carrega no ventre a alma do mar. Mas de que lhe adianta ter à mão coração e sabedoria para desembrulhar o sopro da vida se o medo ainda lhe é um cão danado!

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Maria (Des)nomeada

Francesca Woodman

Sou rosto corpo inteiro,
sou grão, sou areia,
sou filha
da lua-cheia.
Sou tempestade, e sou mar,
e sou grito por revelar.
E sou espelho e sou reflexo,
espectro
do vazio e do deserto.
E sou alma roubada,
pobre alma minha desassossegada,
flor daninha por quem sois 
de alma perdida.
Pena de asa negra desgarrada
de qual sorte fui parida
e a qual morte fui deixada,
só, triste e abandonada.
E sim, penso-te,
e sim, sinto-te,
e sim, respiro-te
mas sei que sem ti,
eu Maria, 
não me existo…


sábado, 13 de dezembro de 2014

Espectro


Francesca Woodman

Quando olha para o ventre do espelho 
vê sempre dois reflexos; 
o vazio 
e o deserto; 
maldita alma minha que não conseguis 
adaptar-vos à realidade.