Sentou-se no sofá, fez “zapping”, levantou-se, deitou-se a ler um livro no terraço, fumou
uns poucos de cigarros, fez uns quantos de carreiros pela casa. Mas que raio de
dia comprido que nunca mais acaba!
Cansada de fugir e de se esconder atrás daquela
ansiedade que a persegue, saiu em marcha acelerada em direcção à Marina do
Freixo. Caminhou um pouco para anestesiar a alma e cansar o corpo, mas a brisa do
fim de tarde estava fria e incentivou-a à entrada no bar para tomar uma bebida
aquecida. Procurou o aconchego para o seu desassossego no chocolate negro e no
cigarro, o seu amigo e fiel companheiro. Ali, na companhia do rio, da lua e de
mais um punhado de gente desconhecida, enroscada no seu pensamento
e consciente de que a vida lhe vai concedendo algumas nesgas de tempo, descobre
que afinal, ainda não está totalmente disponível para si.
Titulo: Railway Station Clock - Estação de São Bento - Porto
Fotógtrafo: Leonardo Patrizi Colecção: E+
Já reparaste rapariga! Ainda ontem era Dezembro e
pelo andar da carruagem amanhã Dezembro será!
Caramba, como um ano passa depressa, e a gente nem se
dá conta! Também não admira, quando a unidade de medida se limita à contagem de
uns míseros 31 dias…
Pois é! Mas enquanto o resto do tempo levanta voo,
nós, os comuns mortais, cortamos caminho em sentido contrário como quem dobra o tempo na força do braço de ferro. Para além de que, como seres
umbilicais e petulantes que somos, fazemos tábua rasa da nossa condição frágil e humana,
tomamos como adquirido a nossa maior importância, e não lhe reservamos, ao tempo, um lugar sentado ao nosso lado durante a viagem.
Sabes rapariga! Quiçá amanhã, a traça da Estação de
Dezembro se faz modelo, e contagia a traça das demais Estações e Apeadeiros que
nos contam de Janeiro ao resto do ano inteiro. Quiçá, um dia até perdemos o
medo e abrimos a mão, e o coração, e abraçamos a vida conforme ela é nos é servida
no prato do dia, e aí talvez, o tempo até seja generoso connosco e nos concede
um par de asas para rasgarmos o ar a seu par.
E agora para terminar, e como estamos na recta final do itinerário anual,
que é sorvida como se não houvesse amanhã como se fosse a única paragem digna de festejo do ano inteiro, deixo-vos na companhia da “Estação
de São Bento”, a estação de eleição da minha Cidade Invicta. O belo poema
de Henrique Manuel Bento Fialho extraído do seu livro de poesia contemporânea “Estação 2012” publicado pela Mariposa
Azual.
“Não queremos
ver o que se esconde dentro da névoa.
Fecharmos os
olhos, manearmos a cabeça,
para não vermos
o que, supomos, se esconde dentro da névoa.
Num dia de
Primavera, com a chuva a levantar da terra
o cheiro das
coisas em decomposição.
Ao fundo por
cima das árvores, as nuvens bailando,
fazendo tremer
os dias. Ele estava triste em 1974.
Ninguém
compreenderá este cansaço silencioso
com que
acordamos todos os dias para a morte,
os dois,
estranhamente separados pelo tempo,
talvez por esse
mesmo tempo que se esconde dentro da névoa
e que nós não
queremos ver, não queremos entender.
Olho, do outro
lado da rua, a roupa esvoaçando num estendal.
Há uma tristeza
que se anuncia na forma delicada
com que
olhamos, os dois, estas coisas.
Um fio de
sangue a escorrer-nos dos olhos,
um fim doloroso
à nossa espera, um sonho errante.
Em silêncio te
digo, descansa em paz os teus tormentos.
Breve,
voltaremos a cheirar a terra que ora se levanta.”
Por fim peço-vos; relevem o meu estado de espírito
aziado, e mais vos peço que nunca se esqueçam que a vida é um presente digno de
ser desembrulhado com entusiasmo todos os dias do ano, independentemente dos
rigores e das adversidades do tempo que nos vão queimando às prestações..
Resumindo e baralhando, façam por serem felizes e por
fazerem alguém feliz. Quanto a mim apenas vos digo que vos guardo e vos estimo na minha teia o ano
inteiro, e por isso desejo-vos tudo de bom e assim.
Enquanto
ele levantava a mesa, colocava os pratos, os copos e os talheres na bancada,
ela ia adiantando serviço, lavando a louça de costas voltadas à mesa da cozinha
onde tinham terminado o jantar.
(Apesar
de terem maquina de lavar louça, ela insiste em lavar a louça à mão, manias!)
Ora
continuando. Ainda lhes faltava tomar o café.
A
tirada do café ao fim das refeições, quando partilhadas em casa, entre outras
actividades caseiras, são sempre executadas por ele, não por imposição, mas
porque fora acontecendo no tempo de forma natural e espontânea. Ainda assim,
quantas vezes, cada um deles rezinga por entre os dentes, o reclamar por ter que
fazer todos os dias, sempre as mesmas tarefas domésticas que lhe são afectas.
- O café está na mesa. Acabas de lavar a louça ao fim.
Mas
ela como detesta deixar a meio o que tem em mãos, continuou a enxaguar
os últimos copos.
- Raça
de mulher! Não me adianta falar!
Ela
olhou para trás, deitou-lhe aquele olhar sorriso de desafio, e absteve-se de
comentar.
-Também
gosto muito de ti. Acrescentou ele em tom de resposta ao seu silêncio teimoso, que o incomoda de
sobremaneira. Ainda insatisfeito continuou a argumentar.
- E tu
sabes. Tu sabes bem que gosto muito de ti, mais até do que devia. Ás vezes, nem
metade merecias.
Ela
voltou-se, secou as mãos, sentou-se na mesa à frente dele, olhou-o nos olhos, e,
com toda a calma do mundo, rematou.
- Com
que então, nem metade mereço?! Olha cá, metade é muito pouco e o dobro também não me é
suficiente.
Ele
deu-lhe um sorriso franco, de quase vitória e remedou.
- O
que acabaste de dizer é tão bonito que tens que escrever.
"Etvoila", foi o que, acabei de fazer.
O
café quando se bebeu ainda estava no ponto, apesar do mau tempo ;)
Olha Isabel, acho que casei bem as minhas palavras com esta musica linda :)
Existe uma linha imperceptível que determina o eixo
vertical da nossa (as)simetria estrutural, quer física, quer emocional. Essa
silhueta ténue de linha fina não deixa de ser uma figura geométrica fictícia
que nos divide e que nos define, mas que também nos crucifica do princípio ao
fim da vida. Pese embora a robustez do segmento de recta que nos comporta, verifica-se que o
fio da respectiva rota vai tropeçando no eixo axial do tempo, levando os pontos
de fuga a abrir frestas a novas perspectivas.
A melodia da vida tem como regra de base a proporção, o equilíbrio e a harmonia, medida pela lógica assertiva da tradução matemática. 1 + 1 = 2
Contudo, a melodia do amor não reconhece a dedução lógica e racional daquela equação, da qual se apura uma outra conjugação; 1 + 1 = 1
Ainda que me tenha como boa gestora da razão, ainda não consegui aplicar a correcta dedução lógica matemática, à melodia do amor.
Obviamente que 1 + 1 = 1, não é equivalente a 1 + 1 = 1 + 1! Essa sim, seria a melodia do amor na perfeição pautada pela lógica e pela razão. Digo eu, e contra mim falo, que me assumo e me identifico como uma catástrofe de emoção!
Guankan-jima (Japan): the forbidden Island Fotografiaretiradadaqui
O mote para debitar umas linhas de
raciocínio escorreito, sequencial e ordenado até mostram vontade de se rebelarem contra o
sifão mental entupido, mas o cansaço e a preguiça do corpo, tendem a querer levar-me
a melhor.
É fácil de identificar o estado
arredio do meu espírito, sem disposição para ocupar o parco tempo e o
pensamento com os não assuntos que fazem a ordem do dia da urbe social.
A vida real é, por vezes, ou quase
sempre, dura e pesada. Está à vista para quem a quiser ver com olhos de ver, no
entanto quando enfrentada, como quem atreve os cornos de um touro bravo ou mete
os dedos na ferida, oferece-se perante nós numa caixa de chocolates sortidos
agridoces. Nunca se tem presente o resultado a curto prazo, nem a indumentária
de gala que a traja, mas a imagem panorâmica que se tem sobre o mapa, captada
ao radar de uma ave de rapina, permite-nos a capacidade da antever e desenvolver
estratégias de reacção e defesa. Mas será esta uma boa estratégia? Nos dias
correntes, já nem sei!
Entretanto, a dureza dos seus componentes físicos
e químicos tem dado corpo à minha rotina nos últimos tempos. O tempo contado ao
milímetro não permite o correcto desempenho da junta de dilatação, nem a
renovação de ar ventilado, e, o desgaste das engrenagens não se
compadece com desperdícios de energia que se impõe necessários para dar repouso ao corpo.
É imperativo descobrir a forma de como
dar folga às costas em proveito próprio. O estendal afectivo já não comporta o
peso de uma alma roubada, calejada e endurecida, que perdeu a motivação para
sonhar…
Mas todo este relambório, denso e
massudo, que depois de espremido não lhe sai pingo de sumo, foi despoletado por
conta de um vídeo de música que despertou a minha atenção num momento de pausa
kit-kat na companhia da minha filha caçoula. Deixei-me envolver pelo ritmo e
pela beleza dos corpos jovens e enérgicos que acompanham a música em
movimentos livres, espontâneos e sensuais. Deu-se em mim um click. Afinal aqui ainda
mora vontade. Afinal é possível superar este estado de cegueira catatónica.
Basta sacudir as asas, fazer log out, e entrar em modo de navegação automático.