quarta-feira, 10 de junho de 2026

Uma rua não é uma estrada, é um ser vivo como eu

Imagem extraída do Pinterest

Era uma vez uma Rua que vivia numa grande cidade. Hoje, o culto da indumentária automóvel tornou-a indistinguível de tantas outras ruas que habitam essa cidade ou qualquer outra localidade.


As ruas não são estradas. Porém, na actualidade, vestem-se como tal. O automóvel conquistou protagonismo sobre o peão, subvertendo a hierarquia da condição humana e roubando espaço à permanência, ao encontro e à convivência. A dependência do carro, porta a porta, apresenta-se como um direito adquirido, instalado na mentalidade colectiva como um vício consentido e institucionalizado.
E a dependência sistemática é um vício. Uma doença socialmente aceite que, neste contexto de urbanidade, empobrece a qualidade de vida das comunidades. Fragiliza as relações familiares e sociais, afecta a saúde física e mental e contribui para a degradação dos ecossistemas. As suas repercussões estendem-se aos sistemas ecológico, bio-natural, ambiental e climático do planeta que, afinal, é apenas a casa de todos nós.


A urbe é um organismo vivo, complexo e em permanente transformação. Os edifícios e os espaços-canal onde estes se apoiam constituem uma unidade indissociável, uma relação de coexistência mútua que molda a identidade e o funcionamento da cidade.
Numa perspectiva mais romântica, as ruas são fontes de vida. São lugares onde o mundo acontece, onde circula a energia que alimenta o corpo e inspira a alma das cidades. E uma cidade com alma vive de gente com alma dentro. Gente responsável, que cuida de si, dos outros, do seu lar e do lar comum que partilha com a comunidade.
Uma sociedade assente na entrega, no respeito e na dedicação dá corpo a uma cidade saudável, equilibrada, segura e amiga do ambiente — uma cidade bio-climatizada, bio-diversificada e funcionalmente harmoniosa. Uma cidade bonita e aprazível convida ao encontro, educa para as boas práticas de lazer e fortalece as relações familiares, sociais e comunitárias. Aproxima-nos da natureza na sua essência e devolve ao automóvel o papel que lhe pertence: o de meio de transporte mecanizado, utilizado de forma racional e, preferencialmente, ao serviço da mobilidade colectiva.


Mas a realidade está longe desta visão poética.


A urbanidade encontra-se afundada num oceano de lata, transitável e estacionário, que irriga as cidades com substâncias tóxicas. As ruas adoecem. O ar torna-se pesado. Crescem a intolerância, a irritabilidade e a indisponibilidade para o outro. As relações familiares, de vizinhança, sociais e profissionais deterioram-se silenciosamente.
Hoje, muitas ruas vivem de costas voltadas para o mundo. E a sua gente vive à margem da própria vida, numa correria desenfreada contra o tempo, de olhos postos no conforto individual e no protagonismo social.
Continuamos presos a velhos hábitos profundamente enraizados. Com demasiada frequência, confundimos prosperidade com ostentação e sucesso com demonstração de poder. A necessidade de afirmação do ego cresce na mesma medida em que empobrece a consciência colectiva.
Comportamento após comportamento, escolha após escolha, a engrenagem vital desta grande máquina entrou em falência. E conduziu-nos ao estado actual de emergência bio-climática, aproximando-nos perigosamente de um ponto de quase não retorno.
Não sei se ainda haverá tempo para inverter este caminho, mesmo que devolvamos às ruas a vida e o pulmão que lhes foi retirado.


Também não sei como expressar plenamente este sentimento de impotência. Durante muito tempo olhei para as ruas, mas não as via. Não as via com o olhar de sentir. Não as reconhecia como seres vivos, naturais e orgânicos, que agora sei que são.
E um ser vivo, tal como eu, precisa de colo, de amor e de cuidado. Precisa de energia positiva para crescer, evoluir, gerar boas sementes e bons frutos. Precisa, acima de tudo, de transmitir um legado digno às gerações que lhe sucedem.


Embora me considere uma pessoa sensível e aberta aos processos criativos que desafiam os modelos estabelecidos, também eu fui moldada pela visão clássica do espaço urbano que a norma institucionalizou durante décadas.


Sei que não sou filha única neste enredo. Somos muitos os actores deste palco. Mas também sei que cada um de nós pode ser um agente de contágio positivo. E que, juntos, enquanto agentes activos de mudança, podemos inspirar novas formas de pensar, desenhar e viver a cidade.


Não deixo promessas.
Mas assumo uma missão.


A missão de devolver vida às ruas, para que as ruas possam devolver vida às pessoas.


sábado, 30 de agosto de 2025

Enredos

Imagem extraída do Pinterest

 























nós queríamos,

nós até podíamos.

mas por cobardia 

não nos deixámos acontecer.

hoje choramos

o medo que nos fez perder,

medo, ou outra cena qualquer,

hoje, tanto faz.

certo é que,

a vontade, o desejo, não se fez sonho

nem outro enredo qualquer 

chamado de realidade. 


sábado, 14 de junho de 2025

O Amor e o seu Abismo















Imagem extraída do Pinterest


Meu Amor, não lamentes o sonho nem a espera do que não foi e podia ter sido.

O silêncio nada mais é que uma armadura de protecção contra emoções intempestivas e palavras mal atiradas no calor da ausência de um sentimento maior.

O sentimento maior vive na saudade de afectos genuínos, e não em palavras vãs e ocas, onde as promessas são o que são, promessas que não resistem ao tempo, à distância e ao silêncio consciente e premeditado.

Mas sem essa consciência, não estamos perante o Amor. Estamos perante uma potencial conquista ou uma vaidade, de cuja substância, não resulta dor, desespero ou frustração. Simplesmente, não há nada. O Vazio consegue maior protagonismo, até porque as Estórias de Amor Incondicionais entre pares permanecem imortais no seu Abismo.


sexta-feira, 25 de abril de 2025

A Liberdade e a Liberdade



A Liberdade é um Ser frágil admirável, que nem uma flor que brota pujante na Primavera, quando cuidada e alimentada o ano inteiro. 

O coração da nossa Jardineira, Celeste Caeiro, sem o saber já o sabia e baptizou a nossa Liberdade, com a nossa flor sazonal, de corte, o Cravo. 
Sem Ela, a nossa Liberdade não seria bonita, singela, tão pouco perfumada, seria apenas uma memória, quiçá intimidatória, da ocupação militar do Largo do Carmo com carros blindados e soldados, em 25/04/1974. 

Acontece que, sem respeito e sem responsabilidade a nossa Mulher Liberdade defraudada, definha e sem capacidade de se defender é usurpada a favor de valores menores. 

Portanto, caríssimos, alimentem e comemorem a Liberdade como se fosse Natal, todos os dias em vossas casas! 


Aproveito ainda este dia, que marca 51 anos de Liberdade no nosso país, para homenagear, Jorge Mario Bergoglio, o Ser, o Homem, o Grão Mestre Jardineiro do povo e do mundo inteiro, que nos deixou um legado extraordinário de Bem-Querer a favor do Bem Comum. 

Façam por serem felizes e por fazerem outros felizes. 

Beijinhos e Abraços 

Sandra


terça-feira, 16 de agosto de 2022

O Meu Zé, 11/08/1941 - 13/08/2022



Faz muito tempo que não escrevo para mim!
No entanto, esta Tua nova viagem não poderia deixar de passar despercebida numa folha de papel vazia.

Viveste sempre de forma ousada, nunca gostaste da rotina! Essa senhora para ti, foi sempre uma figura de estilo muito aborrecida. A vida sempre te foi uma montanha russa, carregada de adrenalina. O fio da navalha foi sempre a tua ilha de conforto.

És um ser especial, fora do padrão normal que está instituído, as tuas particularidades, o teu trato fino, delicado e educado, e o teu olhar malandro, cativaram e encantaram, até mesmo, no período de maior fragilidade e dependência. 
Viveste sempre rodeado de beleza e de juventude, foste e és um homem abençoado!

Sabes Zé, tem dias que viver é a sorte da lotaria, outros dias há, que viver é sobreviver a cada dia, mas tu, mesmo nos altos e baixos, nunca baixaste a guarda, abraçaste a vida com as tuas particularidades, e foste feliz à tua maneira.
 
És o primeiro Homem que Amei, Amo e Admiro. Herdei as tuas raízes, o teu berço, o teu trato fino e delicado, e, muitas das tuas particularidades. E s
abes Zé, foi a herança mais rica e mais bonita que me podias ter deixado. O teu legado vive comigo e acompanha-me sempre para todo o lado.

Tu e a Mãe, apesar dos arrufos de namorados, fizeram um excelente trabalho. Eu, enquanto vossa filha, sou um pouco de ambos, e, tenho-me como boa gente e como uma boa semente. Prometo honrar-vos e não deixar-vos mal, enquanto memória minha houver.
 
Agora, tenho duas coisitas a pedir-te, Zé, quando te encontrares com a Tua Mãe, manda-lhe um beijo meu e diz-lhe que tenho muitas, mas muitas saudades dela. E, quando estiveres com a Minha Mãe, diz-lhe que cumpri a promessa que lhe fiz de cuidar de ti, e manda-lhe também um beijo meu.
 
Por fim Zé, hoje conseguiste realizar um feito notável. Tu que és todo anti padrões e convenções, reuniste a família toda ao mesmo tempo para te cumprimentar e para te desejar uma boa viajem.
 
Não gosto de despedidas, nem de momentos tristes, nunca gostei, assim como tu.
Deixo entre nós umas reticências de saudade e de bem-querer, e já sabes que levas contigo o meu orgulho de ser tua filha.

Fica um beijo meu, um beijo nosso, um beijo de todos.
Nós por cá, os teus filhos e as tuas netas, ficamos bem.
Faz a tua jornada em paz, e, cá estamos até ao teu regresso!
 
A tua filha, Xana.

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Maria Boneca – Capítulo I

Sentada na cadeira de baloiço, herança de sua avó paterna, simplesmente se quer só.
Embalada no tempo talhado daquela madeira maciça, a mesma dureza que lhe deu corpo à alma e lhe cristalizou o medo, esconde-se do mundo e deixa-se em espera. 
De olhos postos na janela e na porta do seu recanto, não ouve, não fala, não quer saber de nada, nem de ninguém, limitando-se ao gesto do balanço lento, em defensivas programadas. Sabe e sente que está para breve o presente do tão esperado momento. A brisa passou-lhe pela janela e materializou o Senhor que permanece do lado de fora à espera da sua mão aberta.
Sabe que após a batida da porta, lhe esperam uns vincos acentuados e uns quantos fios brancos a acrescentar ao seu olhar, e, sabe também que nunca há-de perder o sereno, mesmo que ao abrir da porta, se veja Maria Boneca morta.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

CHCF 11/08/2020

Excepcionalmente, hoje deixaram-me vê-lo.
Acedi ao jardim do Centro de Dia do Alzheimer do Centro Hospitalar Conde Ferreira para o ver do exterior, através de uma janela de guilhotina antiga, reabilitada.
Estava sentado numa cadeira de rodas, próximo da janela, de corpo curvado sobre sim mesmo e sondado (para ser alimentado), e precisou de colaboração da enfermeira Cândida para que a interação entre pai e filha fosse bem sucedida.
Estava sonolento e prostrado, mas ainda assim, com um esforço sobre-humano cantou os parabéns pelo seus setenta e nove anos e atirou-me um beijinho num sorriso palido e esmorecido.

Este dia já ninguém nos tira, Zé, nem o maldito Covid 19!
Para o ano, se vida houver, cá estaremos novamente para comemorar o teu 80 aniversário, caso contrário, o teu legado está devidamente delegado❤️, até porque enquanto memória minha houver, ninguém te vai esquecer.

Parabéns Zé 😊🎂🍾

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Dá a surpresa de ser

Mercuro B. Cotto

























Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.

É a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?

Fernando Pessoa
[Lisboa, 1888-1935]


sábado, 19 de outubro de 2019

Estados da Reabilitação Subversiva

Artur Pastor - Praça do Cubo

Caro Impontual, apreciei bastante este seu testemunho, tanto, ao ponto de me fazer exercitar os dedos. Portanto, alavanquei-me nas suas palavras e desenhei a ultima tendência das operações de cosmética conservação, realizadas nos edifícios de génese construtiva tradicional e secular, à boa moda da nossa mentalidade burguesa. E como está na moda o chavão da reabilitação…

A reabilitação conforme se extrai da essência da sua definição, consiste na restituição de algo ao seu antigo estado, habilitando-o de novo. Ou seja, a reabilitação de um edifício deve ocorrer pela sua conservação / preservação integral, interior e exterior, considerando o seu valor patrimonial e histórico, independente das suas características arquitectónicas, mais ou menos ricas, mais ou menos eruditas. 
Excluindo esses edifícios exemplares, à partida identificados e protegidos pelas entidades de tutela competente, a reabilitação tem ocorrido pela conservação parcial dos demais edifícios antigos, por via da preservação exclusiva do seu invólucro com relação directa com o espaço publico que se lhe apõe.

Pois é! Hoje em dia, os edifícios “bonitos” oferecem sempre um corpo muito apelativo aos olhos de quem nada entende das disciplinas da arquitectura, da histórica e da cultura. Pobres ou esfomeados, os ditos são corrompidos com programas funcionais megalómanos, desproporcionais ao tamanho do seu modelito estrutural, rebentando com as costuras da urbanidade e da habitabilidade da cidade. Aqui o “dolo” até corre bem para a boa imagem da paisagem e para a boa passagem do turismo.
E agora?! Onde está a alma genuína? Onde está o ser? Onde está o sentir? Onde está o seu conteúdo material e substantivo? Onde ficarão registadas as memórias da história? No fachadismo privado sobreposto ao interesse público?

Aqui o dolo é nocivo para o povo, o vulgo cidadão comum, que vai perdendo a passos largos a sua identidade cultural, a sua cidade, a sua habitabilidade e o seu contexto na sociedade da cosmética estereotipada que em busca de lucro faz do lar uma casa deserta.
Portanto, nesta conjuntura leviana, a beleza casa bem com a ganância, com a FALSA ignorância e com a inteligência subversiva.

Sabe Impontual, o Porto transformou-se numa metrópole muito bonita e atractiva ao olhar do turista, mas não é o meu Porto, o que guardo com saudade na memória dos meus tempos de menina. A Ribeira foi purgada da sua alma, remanescendo do seu legado os meninos que ainda desafiam o Rio Douro do tabuleiro inferior da Ponto D. Luiz I. Mas até hoje, esses ladinos, para além da carolice vão à disputa da moeda em troca do espectáculo do salto.
Hoje o Porto é um porto de passagem com muito movimento mas sem a sua gente dentro. Não há como deixar registo afectivo da sua história na memória da nossa malta nova.

E posto isto, caro Impontual, vertendo esta imagem para a beleza da mulher, é um facto que a sua beleza pode ser estonteante e ao mesmo tempo perigosa se for indevidamente ousada a seu favor e a seu bem prazer. Mas aí, cabe ao seu oponente ser dotado de pulso firme e forte para não se deixar ofuscar e imbuir pelo momento a ponto de perder o norte e o bom senso.

A beleza só é realmente bonita quando cria *“(…), seres alma e sangue e vida em mim”.
 
*Florbela Espanca, Ser Poeta em ‘Charneca em Flor’

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

fios de gente "ausente"

imagem extraída do National Geografic 

poesia
brisa breve de emoção
estados d'alma
desassossego do coração
ausência não faz estória
tão-pouco escreve memórias
nas ermidas da saudade
ausência
cala a voz do silêncio
rouba espaço ao tempo
ganha corpo
declara morte ao momento
ausência desenha ausência
vazios prenhos de solidão
desalento
(in)consciência
pobre folha de papel deserta 
caída se vê na teia do esquecimento

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

magia matinal

30/11/2018 Cais Capelo Ivens - Marginal Ribeirinha de Vila Nova de Gaia

Sempre esperei ver-me à mercê da mudez,
não do encarceramento das palavras,
mas do emudecimento perante a beleza do momento.
Quero retribuir-me e não consigo,
de me ver assim,
intrincada num redemoinho de profundas emoções.
Hoje, deponho as palavras mais bonitas,
as que tenho guardado debaixo da pele,
nas asas de um Sonho meu.
Sonho que assim é,
e que assim deve permanecer, intacto,
imaculado no tempo e no espaço para nunca morrer,
enquanto memória minha
houver.



quarta-feira, 6 de junho de 2018

* we never be ashamed of our tears, for they are rain upon the blinding dust of earth, overlying our hard hearts

Sakura / Sayaka Maruyama

Título * Charles Dickens in Great Expectations

da dor
da tristeza
da autenticidade
da pureza
do desassossego
da mão que embala o berço
da fragilidade do ser
que incondicionalmente dá todo o seu bem-querer
o fogo frio trespassa o véu da pele até ao corpo da alma
que nem o fio de uma navalha afiada


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

O Amor precisa de Sexo, já o Sexo não precisa de Amor

Imagem retirada daqui
Há muito tempo que não dou ares da minha graça, mas o nosso amigo Impontual aguçou-me a mente e os dedos com a sua publicação, “Quem dera que o amor fosse como o sexo”, pelo que, e em jeito de comentário expresso aqui a minha opinião sobre esta matéria.

Meu caro Impontual, esta publicação daria pano para fazer muitas colecções de primavera-verão, na medida que cada sujeito tem a sua opinião sobre o tema, Amor versus Sexo, e todas elas são válidas. E sabes? Ainda bem. Cada um é um ser único que sente este dois “afectos”, com implicação comportamental, de modo diferente.
Excluo obviamente deste universo a opinião impositiva dos Senhores da Sotaina que a favor dos beatos sacramentos obrigam os seus fiéis depositários ao cumprimento de regras fundamentalistas e utópicas com sabor a hipocrisia.
Mas adiante.
Ora o Amor precisa de Sexo, já o Sexo não precisa de Amor. Vivemos numa cultura monogâmica que nos foi incutida desde o berço em jeito de lavagem cerebral pela Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana. E, é ao nível cerebral que toda a nossa percepção, sensitiva, emocional e afectiva é processada, e lá está, o corpo, o coração e razão nem sempre estão em sintonia perante esta dicotomia, Amor versus Sexo e Monogamia. Daí, o ciúme e o sentimento de posse tomarem conta da razão como instintos de defesa e de ataque, que em dose de austeridade desmedida destroem o tal afecto que denominas de Amor.
Em tempo escrevi que o Amor é um sentimento maior. Na sua essência é um afecto afectivo altruísta, não é um contrato comercial ou uma cobrança difícil. O amor não fere nem dói. O Amor é o que de melhor existe em cada um de nós. 

Ora, o Amor consagra, actos, atitudes, posturas e comportamentos que o ser humano não tem capacidade de garantir na íntegra ainda que o intente continuadamente. A meu ver sem grande sucesso. E com base neste meu princípio, digo que o Amor é um afecto etéreo, que só os Deuses têm capacidade de materializar. Não acredito que exista Um, ou o Deus, mas acredito nas qualidades extraordinárias de bem-querer que ainda assistem à humanidade que ficam à margem de qualquer credo religioso.
Agora, o Amor em sentido lato, é um sentimento maior que existe em todas as coisas com alma dentro, que alavanca e faz mover o mundo e que confere ao homem a capacidade de se fazer gente melhor.

Já o sexo é uma necessidade vital básica do ser humano, a libido que conduz à prática do acto sexual que pode ser feito com sentimento de comunhão afectiva ou sem ele, onde este acto em estado bruto tem como objectivo alimentar um vício ou saciar a necessidade básica do corpo em descarregar energia no auge do prazer, ou seja, um pecado aos olhos dos tementes servidores dos Senhores da Sotaina, de mente frágil e incendiada, independentemente desses doutos senhores pregarem o que não praticam.

Pois bem, cabe a cada um saber gerir estes dois tipos de registos, Amor versus Sexo, ora como um todo enquanto casal, ora de forma individual no seio do todo, onde o casal mantém em paralelo relações extra conjugais, ora de forma claramente individual na qualidade de solteiros e divorciados. Todas as situações são aceitáveis e válidas, desde que o balanço seja equilibrado e positivo para todos os sujeitos intervenientes no tipo de afecto praticado, onde terá que haver obviamente concertação, verdade, respeito e responsabilidade entre todas as partes. Mas isso já são outros valores que se levantam, que os Senhores da Batina pregam à viva voz de forma precária, privilegiando os direitos do ser de género masculino. Mais uma matéria que dá pano para fazer muitas colecções de inverno!

Impontual, queres dar o mote?

Por fim e em jeito de conclusão, afirmo que homem e a mulher precisam, na mesma medida e na mesma proporção, de afecto afectivo e de sexo para se sentirem seres vivos completos. Certo é que não há relações afectivas perfeitas, mas também não existem manuais de instrução, receitas ou conselhos de alguém ou de qualquer natureza, que nos ajudem a manobrar, de forma sensata e ponderada, estes dois motores vitais que sustentam a nossa condição humana, o Amor e o Sexo.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Ensaios sobre o Amor

Sebastião Salgado (2009)
Apreendi no tempo que o Amor é um sentimento maior. Na sua essência é um afecto altruísta, é um dar sem estar à espera de receber. Não é um contrato comercial ou uma cobrança difícil. O amor não fere nem dói. O Amor é o que de melhor existe em cada um de nós.  
Ora, o Amor consagra, actos, atitudes, posturas e comportamentos que o ser humano não tem capacidade de garantir na íntegra. E com base neste princípio, digo que o Amor é um afecto etéreo, que só os Deuses têm capacidade de materializar. Não acredito que exista Um, ou o Deus, mas acredito nas qualidades extraordinárias de bem-querer que ainda assistem à humanidade, onde este estado afectivo, se apresenta como um ensaio, como uma procura resiliente que se tem prolongado no tempo e que para além do tempo vai, sem ser plenamente encontrado. 
De facto, todos desejamos ser abençoados por tal estado de graça, mas colocamo-nos numa posição de autismo confortável e preferimos gerir os afectos com actos embelezados e falsas promessas, e ainda o justificamos com o conceito de liberdade e com os direitos consagrados pela legislação redigida pela mão imperfeita do próprio ser.
Enfim, nós, na nossa humilde condição mortal e de constante insatisfação procuramos ser tocados pelo Amor, mas rendemo-nos sistematicamente aos devaneios da paixão, esse sentimento forte e explosivo, que nos leva ao êxtase ébrio de prazer e bem-estar, que, mal canalizado conduz a práticas de actos inadequados, invocados em seu “bom” nome.
Se repararem, este ultimo juízo de valor é tecido ao Amor Romântico, aquele sentimento poético que reside no mundo do sonho paradisíaco. Já cantam os poetas que o Amor ora tem a duração fulminante do instante, ora tem duração perpétua para além da vida. A meu ver é um afecto cego portador das patologias crónicas da síndrome da Paixão, em jeito de cocktail explosivo, onde se misturam no mesmo copo, um vasto número de sentimentos, que por fim, acaba por transbordar cheios e vazios numa proporção que perturba o equilíbrio do sujeito.
Gerir o afecto romântico requer alguma regra e muita auto-disciplina interior para que se consiga atingir o equilíbrio entre as partes, até porque a vida não gira só em volta do amor e de uma cabana. A vida tem que ser vivida um dia após o outro com os pés bem assentes na terra. Os sonhos e a fantasia também fazem parte dela, mas quantas vezes se penhoram os dias por conta de expectativas, sonhos e desejos que não têm fim nem têm fundo!?
Eu, resiliente me confesso, aprendi a viver a vida de uma forma prática e objectiva, onde a lógica e a razão se sobrepõe aos desmandos do coração. E assim, neste registo procuro o sentimento maior nas coisas genuínas e nos gestos simples dos meus dias. Já o mundo encantado dos “Se´s” e dos “Quases´s”, que me anestesia das questões da rotina, guardo-o no meio das páginas dos livros que leio, ou visito-o de vez em quando, quando escrevo.

domingo, 24 de setembro de 2017

Striptease


Há muito tempo que a tua alma não se desnudava para mim. Lentamente, em modo de rito de acasalamento, toda a roupagem se espalhou pelo tabuleiro de xadrez.
O cinto, a gravata, sem faltarem os botões de punho, e as demais camadas de papel, caíram estrategicamente dentro do perímetro das quadrículas, para que a peça fundamental não desviasse um milímetro o curso normal do seu destino.
Há muito tempo que a tua alma não me segredava ao ouvido, mas o mistério, o senhor dono do abismo, permanece intacto, deveras tapado e protegido.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Nem 8 nem 80


Brian Cattelle

Não tenho escrito, é certo!
Não tenho dado sinal de vida, é certo!
Ando arredia, é certo!
Ando desinspirada, também é certo!
Ando enfadada e aborrecida, é um facto.
Se ando de mal com a vida? Não, não ando. A vida é admirável, não me fez mal nenhum…
Acontece que neste hiato de tempo em silêncio, constato, ou melhor, confirmo a minha teoria da conspiração. Olho em volta, e para além das gaiolas virtuais, penduradas por aqui, por ali e por acolá, vejo-me ao espelho como uma peça obsoleta a levitar na realidade factual que nem as palavras que são levadas pelo vento, que afirmo eu, ser um (f)acto um tanto ao quanto ficcional...
Não me tenho como um ser antiquado, fundamentalista, quadrado, ou repassado no tempo, para além de ter presente os ditados, que atribuem ao “meio” ao "eixo" e à "metade" a virtude, o equilíbrio e o lado ponderado de todas as coisas. Mas hoje em dia, essa lengalenga não passa de uma grande fantasia. Por força dos tempos da era contemporânea - ó - moderna, o modo, a regra e o exemplo migraram do I para o III quadrante, tendo como base de referência o eixo axial espacial. Ou seja, o universo ficou de pernas para o ar, todo virado do avesso.
Nem 8 nem 80, dizem. Alvissaras aos 40, reza a regra do equilíbrio. Mas a regra, tem-se revelado uma grande merda, salvo as parcas excepções à regra, segundo dita a regra da regra.
Continuo a preferir o limite dos extremos, os "8" e os "80", mesmo consciente, e ciente de ser detentora de maus fígados. Ao menos sei que os fígados são meus, e, são genuínos. Talvez os encontrem por lá, pelos lados do II ou IV quadrantes, onde todas as realidades, prováveis e improváveis, são possíveis e coabitam em sintonia, abaixo ou acima da mesma linha de terra
.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Eu e Ela

Imagem daqui
Eu e Ela, ela e eu;
as duas faces opostas
da mesma moeda,
do mesmo corpo,
da mesma alma, da mesma mente
e do mesmo coração.
Eu moro na terra da realidade
onde a lei da gravidade foi inventada,
onde a matéria que é simplesmente
um punhado de massa
enche a peso a medida da mão.
Ela mora na encosta oposta
onde eu não existo,
mas onde me vejo e me assisto,
enquanto espectro da vontade.
Já nós somos a sombra de um fantasma,
por mais que me agradasse rever-nos
na silhueta de uma acácia
a dançar uma valsa em plena savana.