domingo, 4 de agosto de 2013

Exaustão


Título: Exploding hourglass on black background, digital composite
Fotógrafo: Jonh Lund
Colecção: Photodisc

Porquê? Porque sim!
Por ser o momento certo,
parti a ampulheta,
e devolvi a areia ao deserto.
O tempo que há-de vir
só ao tempo diz respeito,
não quero ver,
não quero ouvir,
nem quero saber.
Agora só quero é dormir.


terça-feira, 30 de julho de 2013

Cegueira II

Título: Silhouette of people walking in fog
Fotógrafo: Gaetan
Colecção: Flickr

Pensei desistir,
baixar os braços,
voltar para trás.
Pensei vestir a t/shirt do sindicato
como protesto da minha viagem de regresso,
de mãos vazias e costas vergadas
a uma estória ainda mal contada.
Pensei calçar as sapatilhas
para não trilhar os dedos
nas rachas das montanhas do medo,
e seguir a torto sem direito
já que o terreno é um poço de entulho enfermo.
(Pelo sim, pelo não,
nunca se sabe em que estado se encontram
os segredos dos charcos mal parados.)
A direito só a voar,
e, só acima do algodão doce,
na companhia do pingo maduro tinto,
para que a leveza ébria nunca me deixe cair
numa qualquer margem
sem rio e sem mar.
Pensei tanta coisa que a mioleira deu um nó,
parece uma teia de areia,
uma raspa de caixa seca espalhada sobre a mesa.
Do lado de fora da janela o nevoeiro é denso,
não se vê um palmo de cheiro,
não se ouve um suspiro,
não se sente o alto do grito,
e o copo  está vazio.
Mas a garrafa,
essa ainda não vai a meio
e eu prossigo o caminho
na minha cegueira.



domingo, 28 de julho de 2013

Cobranças























Título: Window Through Clouds
Fotógrafo: Mihaela Muntean
Colecção: Flickr

Agridem-se,
digladiam-se,
como se fossem um ao outro,
um odio de estimação,
um brinquedo,
um joguete de mão.
E vão espectando na sua imagem
o que esperam um do outro,
desiludindo-se
quando se reduzem às cobranças que os matam.
Só que, o que eles ainda não sabem,
é que se querem
na proporção com que se ferem.


quarta-feira, 3 de julho de 2013

Reticências



















Título:Time Never Ending
Fotógrafo: Alex teuscher
Colecção: Flickr

Antes que ela lhe infligisse o golpe com o ponto final,
ele, o mestre da pontuação,
antecipa-se com o ponto parágrafo, precedido do travessão,
e, entre parêntesis remete-se para a continuação das reticências...
Quiçá tem sorte ao jogo!
Mas há que convir que tal feito, é sobre maneira inteligente!
Não é qualquer um que tem o dom de fintar as adversidades do tempo.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Pé ao Caminho

Título: Womans Legs High Heels
Fotografo: Peter Levi
Colecção: Flickr

Tudo é maior que a tua rua
e a tua rua já é longa.
Uso um atalho,
ou ponho pé ao caminho
ainda de madrugada?
Dizes-me incapaz!
Mas tentar é só o começo,
e esse, já foi ontem.
Amanhã estou de chegada
à porta da tua morada.

domingo, 30 de junho de 2013

Jardins Proibidos



















Título: Oak Tree in Mist
Fotógrafo: laura a. watt
Colecção: Flickr

De novo o teu rosto
deu corpo ao meu sonho.
Demos um abraço sem igual
como se o amanhã não nos fosse real.
Demos as mãos,
e de mãos dadas andamos
pelas ruas despidas,
aos olhos de janelas cegas e mudas.
Mas continuamos no nosso jogo das escondidas
por becos e esquinas
como duas crianças traquinas.
Trocamos palavras bonitas,
fizemos juras de amor eterno,
e talhamo-nos na pele de um carvalho
como prova viva
da nossa existência
no paraíso dos jardins proibidos.
A corda do tempo não parou,
a realidade caiu em mim,
e mais uma vez de joelhos ao chão, gritei.
Sempre que nos encontrámos,

é para nos despedir
.


"Jardins Proibidos" - Paulo Gonzo e Olavo Bilac

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Das Páginas Sociais ao Paraíso Envenenado























Título: Woman Presented as an Apple Tree
Fotógrafo: Emma Innocenti
Colecção: Stone

Sabes meu querido,
não gosto de ser comparada,
escrevo quando me apetece
sem compromisso ou hora marcada.
Mas certo é,
que começo a ficar saturada
de me ver endoidecida pelo vicio da escrita.
Quero sentir-me viva,
com o trivial e banal da vida,
como dar um passeio por aí de mão dada contigo
sem tempo e sem destino.

(Vá lá, não torças o nariz
e dá-me o teu sorriso rasgado de menino)

Quero rir, quero gargalhar,
quero disparatar,
quero até ter ataques de caspa enciumada,
quando te sei olhar para a bainha de outra saia.
Não quero impressionar
tão pouco ser obrigada a agradar,
e vê lá tu, que até quero  vomitar o meu mau feitio
quando o fígado está entupido.

(Sou louca, já sei, já me deste conta disso)

Sabes meu querido eu só quero ser eu.
Ser eu quando estou só,
ser eu quando estou contigo,
ser eu com todas as qualidades e defeitos
a que tenha direito.
Só quero voltar ao ser do meu eu,
ser autêntica e genuína
sem os artifícios que emanam da poesia.

(Já sei, também sou uma menina mimada
de nariz empinado, e?
Tantas há por aí. Mas ao menos eu reconheço
o meu próprio defeito de fabrico.)

Agora meu querido
fica aqui o meu aviso.
Fantasia tece poesia,
e poesia paixão iludida.
E, neste mundo encantado,
o que se tece em privado
é sempre fiado do outro lado.
Tem cuidado meu querido,
olha que este piso
é lodoso e escorregadio.
Um recado mal dado
e outro mal recebido
faz deste espaço
um paraíso envenenado.