quarta-feira, 26 de junho de 2013

Flor do Deserto
















Título: Pink Flower Dress
Fotógrafo: Olena Chernenko
Colecção: Vetta

Esta noite, o teu rosto
ganhou corpo no meu sonho.
Abraçaste-me por trás,
pousaste um beijo suave no meu pescoço,
e um gosto de ti ao ouvido.
Estremeci, acordei,
revolvi-me do avesso e gritei.
Não me sei ver resumida a um ser insignificante,
tão pouco ser um grão de silêncio na imensidão do teu universo.
Revolver-me-ei sempre do avesso
até te ser uma rosa de emoção em pleno deserto.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Cegueira



















Título: Woman Tied to Chair
Fotógrafo: photo by Anna Theodora
Colecção: Flickr

Quando fecho os olhos
o teu corpo alcança o meu umbigo,
a tua voz trovoada entranhasse-me num arrepio,
e o meu sonho sonha contigo.
E quando fecho os olhos
sinto o cheiro do teu cabelo,
o toque da tua pele,
o gosto intenso do teu beijo,
o bater do teu coração inteiro dentro do meu peito.
Sabes? Quando fecho os olhos,
és-me um pecado na mão,
um tornado desenfreado,
uma tempestade de emoção.
Mas quando os olhos se abrem,
a visão arranca-te dos meu braços
para outra dimensão,
e afunda-me na luz da escuridão.
Sabes? Só a cegueira me faz mulher inteira,
só ela te vê, te sente e te tem sem regras e sem fronteiras.

sábado, 15 de junho de 2013

Palavra Desfeita




















Título: Mud Bath
Fotógrafo: Olena Chernenko
Colecção: Vetta

A palavra secou as lágrimas.
O leito da terra ganhou pedra
As margens rasaram desertas
As aves caíram,
as zebras e as gazelas tombaram,
os elefantes, hipós e rinos
daquela sorte também não escaparam.
A cheta e o leão sem carne fresca à mão
também foram parar ao chão.
O cemitério medrou a céu aberto,
e do poema nasceu um monte enfermo.
Os abutres e as hienas que aguardavam à espreita,
e outros vermes interesseiros vieram direitos ao cheiro
chafurdar nos restos da palavra desfeita.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Virado do Avesso

























Título: Other Morning
Fotógrafo: Olena Chernenko
Colecção: Vetta

Desfizeste o nó da gravata,
e à dentada arrancaste
os botões da camisa engomada.
Cortaste as mangas do fato,
e com elas,
vieram as outras mangas por arrasto.
Sacudiste os macacos do telhado,
limpaste o pó da casa,
deste luz ao candeeiro,
e do medo fizeste
uma mesa de prato cheio.
De facto,
acordaste virado do avesso,
mas deste o salto para o outro lado
antes de te veres esmagado
pelo mesmo pesadelo.
Hoje, leve e solto
estás descontraído e preparado
mesmo a jeito de te veres atropelado, 
desta vez pelo meu beijo.

sábado, 1 de junho de 2013

Let her go























Título: The Broken Wall
Fotógrafo: Olena Chernenko
Colecção: E+

Ela sente-o rasgar em dor por dentro
no eco de qual grito
esganado e aflito.
Sabe que ele não tem coragem de a amar,
tão pouco tem coragem
de lhe pedir para se ir embora daquele lugar.
E no silêncio da noite,
noite após noite, 
escuta o lamento daquele fado 
em tormento.
Está na hora de partir 
para que ele pare de se ferir.
Amanhã, ao raiar da aurora,
vai sair e bater a porta com toda a sua força,
consciente de que ele não vai reagir,
ou mesmo a vai impedir.
Sabe que aquela dor vai-lhe aliviar,
mas ficará uma outra, ainda maior no seu lugar.
Ela parte livre para lamber as feridas e renascer das cinzas,
deixando-o ali acorrentado ao peso do medo e do arrependimento,
onde permanecerá estagnado à mercê da sua sorte,
abandonado.

terça-feira, 28 de maio de 2013

O Pardal e a Maria Boneca


Título: Woman in black dress standing next to a window
Fotógrafo: Roberts Birze
Colecção: Flickr

Maria Boneca limita-se ao seu espaço de conforto habitual totalmente desinteressada das movimentações que a rodeiam, das conversas que não são as dela e dos convívios da elite estereotipada.
Sempre muito reservada, só fala se lhe dirigem a palavra, tem-se como uma menina educada, mas sempre com uma imensa vontade de manter-se surda e calada.
Os tempos de exteriorização de pensamentos e sentires estão bem lá atrás no passado. O cansaço ainda lhe pesa na alma por não conseguir fazer-se entender, mesmo junto daqueles que lhe são seus na carne e no sangue.
Habituada à incompreensão e às constantes cobranças de convívio social dentro dos padrões estabelecidos como normais, oferece resistência e remete-se sempre que pode à sua própria companhia autista.
Mas curiosamente, todos os dias, à mesma hora, a meio da tarde faz uma pausa na rotina e vai até à janela que deita vistas sobre o claustro do convento de freiras. Aproveita para pousar os olhos sobre o jardim, os quatros ciprestes que definem o perímetro de quatro lados iguais e a fonte ao meio.
O pretexto primeiro, não é a janela nem aquela tela que muda de cor conforme a rotação das estações do ano. O que a move até à janela é a presença circunstancial de um pardal que de vez em quando vem banhar-se e beber na água da fonte. Não é um pardal castanho qualquer que lhe desperta a atenção. Mas aquele pardal em particular, robusto, atrevido, audaz, desconfiado que carrega o peso de uma lágrima negra desenhada nas penas da asa esquerda.
O mais engraçado, é que sendo ela dona da sua vontade, vê a sua vontade todos os dias hipotecada à rebeldia de uma ave que nasceu livre, e livre há de permanecer até morrer. Sente-se tocada pela liberdade e pela força da natureza que aquele ser lhe é, saudade imensa de mão atada à realidade.
E quando o pardal não lhe concede visita, Maria Boneca suspira. Aquela janela cheia de vida permanece dentro dela, triste e vazia.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Fado do Disco Riscado

























Título: My Spirale World
Fotógrafo: Elena Chernenko
Colecção: Vetta


Aproxima-te, olha.
Sorri-me.
Diz-me algo simpático.
Não deu? Tenta de novo.
Reage, atreve um toque.
Sussurra-me ao ouvido
um verso bonito.
Falha? Ensaia de novo.
Desvenda o olhar.
Não te custa nada,
e a mim dá-me jeito
a alma ao peito.
Quanto ao resto do fado,
parece um disco riscado.
Não aguardes,
ensaia o outro lado,
e faz-te sentir
se queres o tango bem dançado.