Ainda que tal afirmação de conteúdo
aparentemente suspeito e duvidoso, se mostre desfasado na era do tempo moderno,
ou contemporâneo, ou o que for, confirmo que sou prisioneira sim, não de ti,
nem de ninguém, mas exclusivamente de mim.
Em
modo de gaiola de ave canora, vejo-me cativa do meu corpo franzino, da razão da
minha mente, do desassossegado da minha alma e do meu batimento cardíaco
militarmente disciplinado. Em boa verdade, sou refém da visão que tenho do
mundo que me rodeia, que me leva a tomadas de posição de defesa severa, sem
grandes manifestações de exteriorização. (Os egos nunca não devem falar mais
alto que o bom senso, e os olhos por vezes devem de permanecer fechados para
não dizerem disparates).
Não é
à toa que afirmo que o “meu” mundo é
pequenino do tamanho de uma ervilha. Já por esse mesmo motivo não arredo pé dos
meus olhos e dos meus poros para fora. Ali. Ou seja aqui dentro do meu eu, e em
voz de oposição, existe uma imensidão vasta, quase do tamanho do infinito pincelado
em tons de cinza, que ora está em estado de vazio, ora está em estado prenhe,
conforme os rigores do tempo. Ali, ou seja aqui dentro, por norma as ruas da
cidade estão desertas por falta de gente que as queira humanizar, e o mar
arisco, na sua adversidade testa a personalidade, o engenho e a arte de quem se
queira atreve-lo a navegar. O limbo, o outro lado vácuo é o meu estado de
sítio, fujo dele sempre que me é permitido, mas não o combato, nem lhe resisto.
Ao invés disso, aninho-me em posição fetal no ventre do abismo, que permanece
na outra margem de mim, onde reside e eternamente persigo o meu maior
desafio, o de alcançar aquela outra morada tão desejada.
Como já tiveram oportunidade de reparar, e falo de quem me vai lendo neste mundo da blogosfera, que ando afastada e muito queda.
Quando não há mote de inspiração, os acontecimentos relevantes do dia que nos tocam, por vezes são o suficiente, para que o dedo dê de si, e registe o momento capturado na objectiva das palavras.
Ora, desde o dia 5 de Outubro de 2015, o meu pai, o Zé, é utente residente, no Centro Hospitalar Conde Ferreira. De segunda a sexta-feira, passa o dia no Centro de Dia do Alzheimer, São João de Deus, onde almoça, lancha e janta e nos períodos intercalares faz actividades de estimulação cognitiva, terapia ocupacional e de fisioterapia (o Zé já não sabe andar, mobiliza-se em cadeira de rodas). Após o jantar, sobe para a enfermaria, João XXIII para pernoitar, e claro está, em dias de feriado e aos ao fim-de-semana, permanece o dia inteiro naquela enfermaria.
Desde aquela data a esta parte, a rotina do meu pai é aquela, e a minha, tem sido no sentido de articular a minha actividade profissional e a de casa com o acompanhamento presencial e sistemático que lhe faço, três vezes por semana.
Terças e quintas-feiras, saio do trabalho ao fim da tarde em direcção ao Centro de Dia, dou-lhe o jantar, levo-o a fumar nos jardins do recinto hospitalar, e por fim deixo-o na enfermaria, para dormir. Aos sábados, no período da tarde, faço-lhe a visita na enfermaria, e sempre que as minhas filhas e o meu marido têm disponibilidade, também vão ver o avô e o sogro.
Não desviando do assunto, nem do acontecido, e a título complementar, informo que aquele Centro Hospitalar alberga um número vasto de utentes, ora residentes, que em função das patologias de que padecem, estão agrupados por enfermarias distintas e específicas; ora alberga utentes não residentes, que são acompanhados durante todo o dia e continuadamente, de segunda a segunda no Hospital de Dia. O centro de Dia do Alzheimer destina-se exclusivamente a utentes portadores da doença de Alzheimer ou de outras demências em fase leve a moderada da doença, devidamente diagnosticada.
Pois então, ontem, quinta-feira, estava eu a tocar à campainha do Centro de Dia, quando de repente, em direcção a mim, vem uma jovem utente residente, com livre-trânsito de circulação extra CHCF, que me abordou de uma forma muito gentil.
- Estás tão bonita e elegante, hoje! Vieste ver o teu pai?
- Vim sim. Mas olha, tu é que estás muito bonita, respondi-lhe eu, com um sorriso ruborescido.
A jovem seguiu caminho, pelos jardins fora, eu entrei, e fui dar o jantar ao Zé.
Eu e o Zé após o jantar, já nos encontrávamos no espaço exterior, para ele fumar o seu último cigarro do dia, quando de repente, de lá vem novamente a jovem, agora em direcção a nós. Ainda nos oferecia uma distância de cerca de 5,00m e já acenava na mão esquerda uma rosa Santa Teresinha.
- Olha, olha, colhi esta flor para ti. Oferecendo-me aquela rosa com um sorriso franco e acolhedor...
Os meus olhos ficaram rasos de água, mas com um grande esforço, consegui impedir a precipitação das lágrimas rosto abaixo.
Agradeci aquele gesto genuíno com um beijinho e um abraço bem aconchegado ao coração. Ninguém faz ideia, mas os utentes que dão vida, aquele conjunto edificado centenário, são de uma genuinidade e de uma meiguice incalculável, apesar das graves carências afectivas de que são alvo, há anos.
- Estou a fazer tempo para ir jantar. Acrescentou ela.
- O meu pai já jantou, além do mais, o vosso jantar daqui a nada também é servido, já falta pouquinho.
- Pois é, o teu pai janta muito cedo. Olha, o teu pai é escritor? Perguntou-me a jovem com os olhos grandes, bem arregalados?
- Não querida, o meu pai em tempo foi engenheiro, agora só é o meu Zé!
- Sabes? Este fim-de-semana vou a casa, a minha mãe está doente.
- Faço votos das francas melhoras da tua mãe.
- Vou subir, aqui está muito fresco, rematou a jovem.
- Vai lá então. Bom jantar, e bom fim-de-semana.
A moça subiu para a enfermaria respectiva e eu fiz o mesmo com o meu pai quando ele terminou de fumar o seu último cigarro do dia.
Dali, fui para casa com a flor na mão, e com o coração bem consolado. Quiçá um dia, ganho coragem para aprofundar o tema e dar a conhecer uma realidade em presença dura, que quase ninguém conhece.
Eu adoraria deitar o meu pescoço, de asa aberta em voo rasante, naquela brisa amena de tempero almiscarado, onde o infinito não se faz tempo, nem barreira e nem limite; e falo da minha raiz sem presença, noutra terra, noutro céu, noutra paisagem, por entre outras gentes, outras cores e outros perfumes; e mais falo da sua cultura de alheação de génese material e afectiva.
O meu Norte, além-mar, tem aquele apego que não se despega a quem o carrega nas entranhas da alma.
Street Art - Rua João de Deus, n.º 121, Vila Nova de Gaia
Maria
Jaquina, filha da ti´Maria e do Ti´Jaquim, é casada com o Maneli, o padeiro da
terrinha, e mora bem aqui ao lado, na Rua ao Virar da Esquina.
Pois é, Maria, pelo lado da mãe, Mulher pequenina, genuína como a sardinha;
Jaquina, pelo lado do pai, Mulher
de pelo na venta, como diz sua avozinha, menina simples, peito a eito e mão à cinta.
Ora aí está, a verdadeira conjugação explosiva, que faz da Maria, a Mulher de essência genuína, quer da cidade, quer da província. E sempre que a miro, cada vez mais a admiro, pois tenho nela a mão mestre que
embala o berço da raça humana, e a estrela guia do norte da vida.
Digam lá, se ser Mulher,
não é mesmo, a aventura de uma vida?!...