domingo, 13 de novembro de 2016

Eclipse

The Kiss - Central Cemetery - Vienna, Austria Zentralfriedhof


No dia
em que os seus olhos 
se tocarem,
a lua será a luva perfeita
 do sol.
No instante a seguir,
quando o véu se despir,
aqueles corpos banais
não mais terão 
razão
de existir.

domingo, 9 de outubro de 2016

Era uma vez...

Imagem tirada daqui

Existem histórias de amor
que são escritas no sorriso das estrelas,
as tão famosas estórias,
contadas no silêncio da noite
ao travesseiro das crianças.

Era uma vez
um Menino Pastor
que armado em gavião,
beliscou Menina Flor.
Ela, irada, em menos que nada,
assentou-lhe um bofetão,
o rapaz andou de lado,
tonto, caiu desamparado
e foi de cabeça ao chão.
Ela ria-se, gargalhava
e divertia-se
com toda aquela situação.
O rapaz irritado, levantou-se, 
arregaçou as mangas
e sem medir o tamanho daquele fado, 
lançou mãos ao trabalho.
E lá foi ela carregada 
ao ombro do “Burro de Carga” 
caminho fora que nem um fardo de palha.
Pontapeava, esbracejava e gritava.
Ele só dizia:
- Não te adianta de nada, minha cara, 
não tenho medo do mau feitio da tua saia.
Pelo caminho ela viu 
coelhos de patas para o ar
a pastarem na margem do rio, 
viu veados roedores, flores e borboletas 
de vários tamanhos, feitios e cores.
(Já alguém viu coelhos pastores e veados roedores? Não? Mas ela já!)
Mesmo virada do avesso,
estava encantada com a magia
que brotava daquela terra desconhecida,
pela qual se apaixonara,
e desejava que fosse sua.
- Que linda é a tua aldeia, diz-lhe ela.
- Fica então, aqui comigo, vá.
- Hoje não posso, tenho a casa cheia...
- E amanhã?
- Amanhã não sei, mas hoje tenho de ir...

O hoje já foi ontem
e o amanhã ainda não chegou,
mas o vento, de vez em quando é generoso
e devolve-lhes o cheiro
da terra molhada num ramo de oliveira, 
que de lá vem entrelaçado naquele beijo esperado 
à ombreira da namoradeira.

E como diziam as minhas filhas quando eram pequeninas;
“Vitória, Vitória, acabou-se a história”;
de um Amor sem fim, de um Amor sem fundo.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Impontual(idades) do Amor

Imagem tirada daqui

“o amor é uma invenção esgotante”, passo a citar uma citação extraída do “Fim de Setembro” do Impontual.
Se me permite(s), sem qualquer intenção ou presunção, complemento e acrescento, que tal invenção é um fenómeno resiliente que nunca se esgota.
As pessoas vão tropeçando por aí, umas nas outras, mas há aquelas que nos embatem de forma especial. Sem que dê-mos conta, entram sem permissão e instalam-se de mansinho dentro do nosso ninho afectivo, e o mais engraçado é que não há nada nem ninguém que quebre essa corrente transparente; nem o silêncio prolongado no tempo, nem a extrema e franca distância, tão pouco a crispação de personalidade entre feitios aguçados. O amor afigura-se como um menino traquina, mais teimoso que a própria teimosia.
Apesar de todos os pesares, a espera, a esperança e a espectativa continuam a ser os fios condutores que alimentam esse fenómeno crónico. E, apesar de o Amor ser “uma invenção esgotante” que nunca se esgota, é dele que brota a força para se continuar a caminhada, com a vantagem de que o numero primo nunca vai sozinho, segue sempre de coração embalado e aquecido numa nuvem de algodão doce com sabor a baunilha.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Adriano Chamiço

Adriano Chamiço 1998/2016



Os limites periféricos do meu mundo foram hoje, mais uma vez substancialmente encolhidos! Pequenino do tamanho de uma ervilha, o meu universo observa os lugares cativos todos preenchidos, até mesmo os que vão ficando vazios pelo caminho…

Dedicado ao Adriano Chamiço, uma verdadeira alma da natureza que nos adoptou como família durante 18 anos, Maravilhosos.

Obrigado!

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Ela Arabella

Título: Woman with mirror in window
Fotógrafo: Pawel Wewiorski
Colecção: Moment
Ela Arabella passa horas de pé à janela,
à espera da chegada da Primavera
como ela em tempo lhe era.
O tempo contou tanto tempo
que a janela embaciou a rua,
o céu perdeu a lua,
e o mapa da memória
perdeu a rota da história.
Toda Ela se esgota,
toda Ela se consome no fio
da cortina de vidro,
que lhe castra a realidade da estória.
Mas ainda assim, Arabella,
não arreda pé firme da janela,
em espera que o polícia sinaleiro,
dê luz verde ao sinal vermelho.

Segredo(s)

Imagem tirada daqui


























Há vielas secretas,
ou segredos tão só nossos,
que não devemos desvendá-los
sequer a nós próprios,
sob pena de cairmos
no limbo do labirinto afectivo.
E depois da queda,
nem a morte nos encontra,
nem a morte nos leva.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O mundo dos “Se’s” e dos “Quase´s”

Imagem tirada daqui
O “Se” e o “Quase” são duas palavras distintas, que enquanto matéria substantiva tentam atingir a unidade de medida do tempo e do espaço, respectivamente, a meu ver, sem grande sucesso. Elas flutuam no vácuo do abismo entre a dimensão sensorial e o universo de todas a impossibilidades só ali possíveis. Ora é lá, no mundo dos Se´s e dos Quase’s que brota a nascente da poesia mais bonita e genuína. É lá, no mundo dos Se´s e dos Quase’s que o sonho presenteia o ventre do corpo com asas de borboleta e o ser levanta voo em direcção ao céu, qual limite infinito residente dentro da mente (in)consciente.
Resumindo e baralhando, gosto muito de poesia e do mundo fantástico ou fantasioso onde ela se movimenta que nem um polvo no seu habitat natural, agora, Já não gosto de sentir os tentáculos pegajosos dos Se’s e dos Quase’s na corrente sanguínea do meu dia-a-dia. Gosto de poesia, gosto de encher as medidas da alma, gosto de sentir o tesão da paixão à flor da pele e levantar voo de seguida, mas antes disso, antes de ser consumida pelo vício da espectativa, preciso de saber defender bem a minha baliza, preciso de conhecer bem a medida do meu tempo e do meu espaço, e, acima de tudo preciso de ter mão precisa no trajecto do meu caminho. Portanto, viagens ao mundo dos Se’s e dos Quase’s, só com cinto, de alta segurança.