segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Impontual(idades) do Amor

Imagem tirada daqui

“o amor é uma invenção esgotante”, passo a citar uma citação extraída do “Fim de Setembro” do Impontual.
Se me permite(s), sem qualquer intenção ou presunção, complemento e acrescento, que tal invenção é um fenómeno resiliente que nunca se esgota.
As pessoas vão tropeçando por aí, umas nas outras, mas há aquelas que nos embatem de forma especial. Sem que dê-mos conta, entram sem permissão e instalam-se de mansinho dentro do nosso ninho afectivo, e o mais engraçado é que não há nada nem ninguém que quebre essa corrente transparente; nem o silêncio prolongado no tempo, nem a extrema e franca distância, tão pouco a crispação de personalidade entre feitios aguçados. O amor afigura-se como um menino traquina, mais teimoso que a própria teimosia.
Apesar de todos os pesares, a espera, a esperança e a espectativa continuam a ser os fios condutores que alimentam esse fenómeno crónico. E, apesar de o Amor ser “uma invenção esgotante” que nunca se esgota, é dele que brota a força para se continuar a caminhada, com a vantagem de que o numero primo nunca vai sozinho, segue sempre de coração embalado e aquecido numa nuvem de algodão doce com sabor a baunilha.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Adriano Chamiço

Adriano Chamiço 1998/2016



Os limites periféricos do meu mundo foram hoje, mais uma vez substancialmente encolhidos! Pequenino do tamanho de uma ervilha, o meu universo observa os lugares cativos todos preenchidos, até mesmo os que vão ficando vazios pelo caminho…

Dedicado ao Adriano Chamiço, uma verdadeira alma da natureza que nos adoptou como família durante 18 anos, Maravilhosos.

Obrigado!

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Ela Arabella

Título: Woman with mirror in window
Fotógrafo: Pawel Wewiorski
Colecção: Moment
Ela Arabella passa horas de pé à janela,
à espera da chegada da Primavera
como ela em tempo lhe era.
O tempo contou tanto tempo
que a janela embaciou a rua,
o céu perdeu a lua,
e o mapa da memória
perdeu a rota da história.
Toda Ela se esgota,
toda Ela se consome no fio
da cortina de vidro,
que lhe castra a realidade da estória.
Mas ainda assim, Arabella,
não arreda pé firme da janela,
em espera que o polícia sinaleiro,
dê luz verde ao sinal vermelho.

Segredo(s)

Imagem tirada daqui


























Há vielas secretas,
ou segredos tão só nossos,
que não devemos desvendá-los
sequer a nós próprios,
sob pena de cairmos
no limbo do labirinto afectivo.
E depois da queda,
nem a morte nos encontra,
nem a morte nos leva.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O mundo dos “Se’s” e dos “Quase´s”

Imagem tirada daqui
O “Se” e o “Quase” são duas palavras distintas, que enquanto matéria substantiva tentam atingir a unidade de medida do tempo e do espaço, respectivamente, a meu ver, sem grande sucesso. Elas flutuam no vácuo do abismo entre a dimensão sensorial e o universo de todas a impossibilidades só ali possíveis. Ora é lá, no mundo dos Se´s e dos Quase’s que brota a nascente da poesia mais bonita e genuína. É lá, no mundo dos Se´s e dos Quase’s que o sonho presenteia o ventre do corpo com asas de borboleta e o ser levanta voo em direcção ao céu, qual limite infinito residente dentro da mente (in)consciente.
Resumindo e baralhando, gosto muito de poesia e do mundo fantástico ou fantasioso onde ela se movimenta que nem um polvo no seu habitat natural, agora, Já não gosto de sentir os tentáculos pegajosos dos Se’s e dos Quase’s na corrente sanguínea do meu dia-a-dia. Gosto de poesia, gosto de encher as medidas da alma, gosto de sentir o tesão da paixão à flor da pele e levantar voo de seguida, mas antes disso, antes de ser consumida pelo vício da espectativa, preciso de saber defender bem a minha baliza, preciso de conhecer bem a medida do meu tempo e do meu espaço, e, acima de tudo preciso de ter mão precisa no trajecto do meu caminho. Portanto, viagens ao mundo dos Se’s e dos Quase’s, só com cinto, de alta segurança.

sábado, 16 de julho de 2016

Coração ao Largo

Marco Britto, em Photography by Fivehundredpx

Errar é humano, literalmente falando. E, tal acto ou acção é inata à condição humana, passo a redundância da expressão. Eu diria mesmo, que o erro é uma alavanca manca através da qual podemos tirar proveito de ensinamentos com vista a corrigir-mo-nos e a aperfeiçoar-mo-nos perante nós e perante os outros.

Ultimamente, tenho viajado muito dentro de mim, e de mim para mim, em busca do caminho certo para levar a bom porto a última etapa de uma jornada que tem sido longa, delicada e complicada.
O tempo no tempo é implacável quando o nosso tempo já vai para além da metade. É imperativo que dê da perna para me desembaraçar do que me pesa, do que me farda e do que me inquina a franca mobilidade, despenalizando o peso da consciência para outra instância. O  meu tempo é cada vez mais precioso, para me dar ao luxo de o desperdiçar. 
Está a olho visto, qual o meu próximo desafio afectivo; decidir racionalmente de facto e de direito a causa e o efeito, e agir a frio de coração ao largo, em espera calculada pelo repostar do outro lado, caso seja encetado.
O tempo e a experiência ensinaram-me a ver um pouco mais além, e a agir preventivamente, mas também me têm advertido que não sou imensa, que não consigo abarcar nem resolver todos os problemas em simultâneo, muito menos os de hoje e os de amanhã ao mesmo tempo, e, a vida não se compadece com o marasmo, nem com o deixa andar, nem com a falta de firmeza de decisão no momento exacto.   
Esta na hora de agir com precisão e de costas voltadas ao medo de cometer erros, e de prosseguir caminho por locais salubres e bem iluminados, de corpo leve, mente arejada e com o interruptor afectivo muito bem desligado; se bem que, preferiria mil vezes, calcorrear ruas antigas, estreitas e escuras, iluminadas por candeeiros obsoletos enluvados por teias de aranha. 

sábado, 2 de julho de 2016

Da Memória Intermitente

NOELL S. OSZVALD

O filamento incandescente da memória tem vindo a padecer de hiatos de intermitência entre as terras saudade e as terras do esquecimento. A ampulheta da cegueira partiu-se no meio do recheio do sótão desarrumado, deixando espalhados ao acaso os estilhaços do tempo da espera.
O fio do tempo desatou o nó da clausura, implodindo a cadeira vazia quase em estado de asfixia. Não lhe apetece escrever, não lhe apetece arrumar os cacos, não lhe apetece (re)lembrar, até porque isso implicaria repovoar a dor da saudade, mas também tem medo de esquecer e de cair no esquecimento, e a escuridão permanente está mesmo ali, na iminência de se instalar definitivamente.
À cautela, resta-lhe desligar o interruptor e acender uma vela no parapeito interior da janela, e, mais uma vez sabe que vai esperar que o destino fatídico se cumpra até à queda do último pingo de cera.