“o amor é uma invenção esgotante”, passo acitar uma citaçãoextraída
do“Fim de Setembro”do Impontual.
Se me permite(s), sem qualquer intenção ou presunção,
complemento e acrescento, que tal invenção é um fenómeno resiliente que nunca
se esgota.
As
pessoas vão tropeçando por aí, umas nas outras, mas há aquelas que nos embatem de
forma especial. Sem que dê-mos conta, entram sem permissão e instalam-se de
mansinho dentro do nosso ninho afectivo, e o mais engraçado é que não há nada
nem ninguém que quebre essa corrente transparente; nem o silêncio prolongado no
tempo, nem a extrema e franca distância, tão pouco a crispação de personalidade
entre feitios aguçados. O amor afigura-se como um menino traquina, mais teimoso
que a própria teimosia.
Apesar
de todos os pesares, a espera, a esperança e a espectativa continuam a ser os
fios condutores que alimentam esse fenómeno crónico. E, apesar de o Amor ser “uma invenção esgotante” que nunca se esgota,
é dele que brota a força para se continuar a caminhada, com a vantagem de que o
numero primo nunca vai sozinho, segue sempre de coração embalado e aquecido
numa nuvem de algodão doce com sabor a baunilha.
Os limites periféricos do meu mundo foram hoje, mais uma vez
substancialmente encolhidos! Pequenino do tamanho de uma ervilha, o meu
universo observa os lugares cativos todos preenchidos, até mesmo os que vão
ficando vazios pelo caminho…
Dedicado ao Adriano Chamiço, uma verdadeira alma da natureza que nos adoptou como família durante 18 anos, Maravilhosos.
O “Se” e o “Quase” são duas palavras distintas, que enquanto matéria substantiva
tentam atingir a unidade de medida do tempo e do espaço, respectivamente, a meu
ver, sem grande sucesso. Elas flutuam no vácuo do abismo entre a dimensão
sensorial e o universo de todas a impossibilidades só ali possíveis. Ora é lá, no
mundo dos Se´s e dos Quase’s que brota a nascente da poesia mais
bonita e genuína. É lá, no mundo dos Se´s e dos Quase’s que o sonho presenteia
o ventre do corpo com asas de borboleta e o ser levanta vooem
direcção ao céu, qual limite infinito residente dentro da mente (in)consciente.
Resumindo
e baralhando, gosto muito de poesia e do mundo fantástico ou fantasioso onde
ela se movimenta que nem um polvo no seu habitat natural, agora, Já não gosto
de sentir os tentáculos pegajosos dos Se’s e dos Quase’s na corrente sanguínea do
meu dia-a-dia. Gosto de poesia, gosto de encher as medidas da alma, gosto de sentir
o tesão da paixão à flor da pele e levantar voo de seguida, mas antes disso, antes de ser
consumida pelo vício da espectativa, preciso de saber defender bem a minha baliza, preciso de conhecer
bem a medida do meu tempo e do meu espaço, e, acima de tudo preciso de ter mão precisa no
trajecto do meu caminho. Portanto, viagens ao mundo dos Se’s e dos Quase’s, só
com cinto, de alta segurança.
Errar é humano, literalmente falando. E, tal acto ou
acção é inata à condição humana, passo a redundância da expressão. Eu diria
mesmo, que o erro é uma alavanca manca através da qual podemos tirar proveito de
ensinamentos com vista a corrigir-mo-nos e a aperfeiçoar-mo-nos perante nós e
perante os outros.
Ultimamente, tenho viajado muito dentro de mim,
e de mim para mim, em busca do caminho certo para levar a bom porto a última
etapa de uma jornada que tem sido longa, delicada e complicada.
O tempo no tempo é implacável quando o nosso tempo já
vai para além da metade. É imperativo que dê da perna para me desembaraçar do que me pesa, do que me farda e do que me inquina a franca mobilidade, despenalizando o peso da consciência para outra instância. O meu tempo é cada vez mais precioso, para me dar ao luxo de o desperdiçar.
Está a olho visto, qual o meu próximo desafio afectivo;
decidir racionalmente de facto e de direito a causa e o efeito, e agir a frio de coração
ao largo, em espera calculada pelo repostar do outro lado, caso seja encetado.
O tempo e a experiência ensinaram-me a ver um pouco mais
além, e a agir preventivamente, mas também me têm advertido que não sou imensa,
que não consigo abarcar nem resolver todos os problemas em simultâneo, muito menos os de hoje
e os de amanhã ao mesmo tempo, e, a vida não se compadece com o marasmo, nem com
o deixa andar, nem com a falta de firmeza de decisão no momento exacto.
Esta na hora de agir com precisão e de costas voltadas
ao medo de cometer erros, e de prosseguir caminho por locais salubres e bem
iluminados, de corpo leve, mente arejada e com o interruptor afectivo muito bem
desligado; se bem que, preferiria mil vezes, calcorrear ruas antigas, estreitas
e escuras, iluminadas por candeeiros obsoletos enluvados por teias de aranha.
O filamento
incandescente da memória tem vindo a padecer de hiatos de intermitência entre
as terras saudade e as terras do esquecimento. A ampulheta da cegueira
partiu-se no meio do recheio do sótão desarrumado, deixando espalhados ao acaso
os estilhaços do tempo da espera.
O fio do
tempo desatou o nó da clausura, implodindo a cadeira vazia quase em estado de
asfixia. Não lhe apetece escrever, não lhe apetece arrumar os cacos, não lhe
apetece (re)lembrar, até porque isso implicaria repovoar a dor da saudade, mas
também tem medo de esquecer e de cair no esquecimento, e a escuridão permanente
está mesmo ali, na iminência de se instalar definitivamente.
À cautela,
resta-lhe desligar o interruptor e acender uma vela no parapeito interior da
janela, e, mais uma vez sabe que vai esperar que o destino fatídico se cumpra
até à queda do último pingo de cera.
I'm in heaven, lying on cotton candy clouds tasting vanilla dreams; So, do me a favor, don’t wake me up!
The Game Come, let us play a game, little boy, To while the world away. What shall be – tell me – our harmless toy? At what shall we play? Shall we play – shall we? – at being great? No, nor at being grand. Shall we believe that we are Fate And make up lives out sand? No, little boy, we will play that we are Happy, and that we are gay; Let us pretend we are dreams, very far From the world in which we play.
*Alexander Search
January 2nd. 1908
***
(TRAD.)
O Jogo Anda, rapaz, deixa o mundo real, Vamos jogar um jogo. O que será – diz lá – brincadeira sem mal? A que jogamos logo? Vamos brincar - que tal – a quem é o mais forte? Não, nem ao mais valente Fingimos que somos a Sorte E do pó fazemos gente? Não, rapaz, afinal jogamos antes A tão contentes que estamos; Fingimos que somos sonhos, distantes Deste mundo em que brincamos.
*Alexander Search 2 de Janeiro de 1908
*um dos 136 autores fictícios de Fernando Pessoa Poema extraído da edição de Jerónimo Pizarro e Patrício Ferrari - Tinta da China Eu sou uma antologia 136 autores fictícios Fernando Pessoa
*Alexander Search, a mais prolífera figura literária do universo pessoano antes do mês «triunfal» de Março de 1914. Terá nascido em Lisboa a 13 de Junho de 1988, isto é na mesma cidade e na mesma cidade que Fernando Pessoa. Terá surgido na mente de Pessoa em 1906, ano em que começa a herdar os poemas antes atribuídos a Charles Robert Anon.(…)
«A Search» ou «Alex. Search», como assina alguns textos, foi uma figura poliglota, essencialmente activa entre 1906 e 1911. Porem o seu nome cionsta ainda de um plano literário de 1914, as suas iniciais surgem num cabeçalho de uma entrevista a *Alberto Caeiro – redigida em português e realizada e Espanha, onde esteve Search – , e é, uma vez mais, citando num plano editorial tardio, posterior a 1932.
Ela vive dentro de um compartimento imenso para lá da porta cor-de-rosa, cuja chave só encasa na relíquia esculpida em latão pelo lado de fora da mão.
Ela vive dentro daquele denso compartimento com o segredo da chave em seu poder, mas sabe que o poder de a fazer rodar ainda não o pode exercer; É lá dentro que reside a responsabilidade da vida que gira em torno de si. Não é uma ilha isolada no meio do nada, ainda é um Porto de Abrigo, mesmo quando sente muitas vezes um desejo enorme de ser um grito.
Assim vive todos os dias dentro do compartimento, sempre de olhos postos nos ponteiros do tempo. E tem medo. Tem muito medo de quando exercer o poder de soltar a roda da chave, já não lhe restar tempo de qualidade para concretizar o que mais deseja e o que ainda lhe falta fazer, viver o seu Grande Amor por África.
***
“Parabéns mais uma vez mãe.
Sei que ultimamente tens andado muito stressada e cansada, e eu, e a Bia não temos ajudado...
Este é o teu dia, e quero quando chegar a casa, e o resto da noite, ver-te bem-disposta com esse sorriso lindo que tu tens no rosto. Apesar de tudo, agradeço-te por seres quem és (tanto como mulher, tanto como mãe), tenho muito orgulho na pessoa que és.
Palavras não descrevem o quanto eu te valorizo e te amo.
Palavras não conseguem agradecer tudo aquilo que fizeste, fazes e irás fazer por mim e naquilo que me ajudaste a ser!
Vamos fazer este dia valer a pena, mesmo que sejamos só as três.
Amo-te muito mãe!❤”
SMS enviada pela minha M. Inês
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Desenho feito pela minha M. Beatriz
Reparem só no pormenor das quatros trepadeira que vivem dentro do compartimento (I, J, B, S)
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E o mimo manipulado digitalmente pela minha outra parte, J. Louçano
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E é por estes motivos e por mais um outro, que me dá sempre um sorriso rasgado quando me vê, sem hoje ter tido a noção do dia que me era, que vale a pena viver dentro do compartimento que fica para lá da porta cor-de-rosa.
Eu era a sua única filha, não éramos muito próximas,
entre nós sempre houveram grandes conflitos de personalidade. Ela era uma
mulher lindíssima, mas o que tinha de rara beleza, também o tinha em dose
excessiva de austeridade militarista. Não era de sorriso fácil, nem oferecia grandes manifestações
de amor e carinho. Mas no que tocava a formação e educação era rígida e não
deixava por mão alheia aquilo que só a ela lhe competia. Ensinou-me o significado da liberdade e da consequente maior responsabilidade, assim como me empurrou para a aprendizagem
compulsiva de que a vida tem que ser conquistada a pulso de trabalho e muita dedicação. Os meus pais sempre foram pessoas de posses, mas o supérfluo nunca
me foi dado de mão beijada. Se o queria, tinha que o conquistar, deitando mão
ao trabalho para o conseguir adquirir. Naquela altura, aquela postura de dureza
crua feria-me profundamente. Recusava-me a concebê-la no meu entendimento. No
entanto, hoje, só tenho que lhe agradecer tal rigidez de conduta. Formei-me, construí-me
e constituí família à custa de muito trabalho, de muito esforço e de muita dedicação.
Não devo nada a ninguém é um facto, mas sou de igual forma uma mulher de
sorriso pouco fácil, herança antiga do matriarcado. Nem tudo nesta vida que dá fruto, se faz
brotar rosa sem espinhos.
No tempo, herdei este legado de raiz sólida, que faço hoje por transmitir às minhas duas filhas, com alguns ajustamentos, obviamente; menos dose
de austeridade, e mais algum do meu sorriso espontâneo ;)
Acho que é esse o papel de mãe, ensinar os filhos a trabalhar
e a fertilizar a terra com vista a colher bons frutos. Eles nascem de nós, mas não
são nossos, pertencem ao mundo.
O deserto é um mundo imenso cheio de vazio dentro.
Tem horas do dia que o céu se confunde com a areia, iludindo o horizonte do
olhar com a imagem do mar, e, à noite, a plenitude do universo galáctico está
mesmo ali, ao alcance da mão.
Aquela beleza estonteante, camuflada de perigo, exala mistério e
desperta grande curiosidade ao “inimigo”. Há quem se atreva ao
desafio da sua descoberta, testando a sua capacidade de resistência. Já os mais “acanhados” preferem
esconder a falta de coragem, enfiando a cabeça na areia.
Pois é, o abismo é o copo vazio mais cheio que
conheço. Todos têm sede de o beber, mas nem todos tem audácia para o fazer.
O
texto que entendi também aqui partilhar convosco aconteceu em sede de resposta à pergunta lançada por Miss Smile, Porque Escrevo?
Ali, publicada originalmente.
Como
tive oportunidade de lhe confidenciar em privado, esta questão foi de grande importância
para mim. Obrigou-me a fazer uma viagem no tempo e a fazer o ponto de situação ao
meu eu afectivo, levando-me de encontro à capacidade, há já algum tempo perdida, de olhar-me nos olhos
de forma nua e crua sem ter medo de meter o dedo na ferida.
Concluí
por fim, que escrever deixou de ser uma necessidade para mim. Hoje nada mais é
que um registo avulso e escasso no tempo, com vista a perpetuar a memória da minha memória, para quando esta estiver falida. Mas se fizer uma análise, ainda mais
crítica, admito que este gesto de investimento interior não deixa de ser de igual
forma uma pretensa vaidade em me dar a conhecer a quem do outro lado me lê.
Com tudo isto, e por mais isto, por aqui, para já me fico, mas não fico sem deixar de desejar todo o
meu bem-querer a Miss Smile.
Se não fosses tu, Miss Smile, o meu eu não se teria
confrontado tão rápido.
O título da tua publicação que imputou esta pergunta poderia muito bem ser uma das minhas respostas, transferindo o sorriso como resultado de um registo escrito macerado. Mas essa realidade, hoje não é a minha verdade, acontece que a tua questão coloca-se hoje e agora, e hoje não te sei dizer o real motivo porque escrevo.
Se fizer uma análise retrospectiva e introspectiva sobre a questão, posso dizer-te que em tempo, não há muito tempo, mas há algum tempo escrevi muito num determinado registo. Fiz da escrita uma terapia afectiva, como quem procura a cura de toda a desventura na poltrona de uma consulta de psiquiatria.
Ao invés, a palavra assistiu-me como elemento medicinal cicatrizante. Quantas vezes, lambeu ela a minha ferida em tempo aberta, e outra tantas escoriações! Posso dizer-te que foi nos piores momentos da minha vida, de dor e de agonia que brotaram os meus escritos mais bonitos. Hoje, a ferida está cicatrizada e a sua marca permanece escarificada no corpo da minha alma. Não tenho saudades nenhumas desses momentos, longe de mim os quero. Agora tenho muitas saudades e sinto muita falta dos meus escritos mais bonitos. Olho para eles, e questiono-me de como fui capaz de conseguir tamanhas façanhas, algo de que hoje, não sou capaz.
A verdade é que cada vez mais, escrevo cada vez menos. A memória tem vindo a perder a capacidade de armazenar e de processar informação, e o tempo útil é canalizado de outra forma. E com isto te digo que a minha teia, a cada dia, está mais perto de deixar de ser tecida. Já muito vivi para o meio tempo de vida que já vivi, e já muito escrevi e já muito registei, mas redundância do meu sentir, remete-me hoje para o silêncio, sobe pena de não me querer ver como uma alma obsoleta, e de não me querer ouvir como um disco riscado perturbador.
Hoje, como te disse, não sei porque escrevo, o objectivo primeiro deixou de fazer sentido. Talvez escreva na tentativa de encontrar respostas a perguntas de rectórica; talvez procure atingir a paz no equilíbrio emocional e afectivo, ou talvez queira apenas deixar o meu registo escrito como prova de ter existido. Mas de uma coisa eu tenho a certeza, o meu escrito mais bonito, não será escrito, permanecerá imaculado no silêncio de uma folha de papel branca.
Sabemos bem o que não deve ser
feito.
Qual silêncio sobreposto,
qual grito aflito,
qual olhar imperfeito!
Coração que sente
não define conceito,
nem se exprime como mente.
A própria razão
desconhece a razão do seu próprio ente.
Coração que é alma de gente,
sempre se revela e sempre desmente
o que a palavra cala e não lhe consente.
E agora? Quando o consentimento da palavra não lhe for bastante e suficiente?
Deixar-nos-emos esvair por entre os dedos,
na hora do acerto dos ponteiros,
anichando de forma assistida
ao conforto da cobardia?
Ou será que nos permitiremos enfrentar
como se alguém nos espetasse o
dedo na ferida,
garantindo a coragem do ser grão
enquanto a vida nos respira?