sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Ela Arabella

Título: Woman with mirror in window
Fotógrafo: Pawel Wewiorski
Colecção: Moment
Ela Arabella passa horas de pé à janela,
à espera da chegada da Primavera
como ela em tempo lhe era.
O tempo contou tanto tempo
que a janela embaciou a rua,
o céu perdeu a lua,
e o mapa da memória
perdeu a rota da história.
Toda Ela se esgota,
toda Ela se consome no fio
da cortina de vidro,
que lhe castra a realidade da estória.
Mas ainda assim, Arabella,
não arreda pé firme da janela,
em espera que o polícia sinaleiro,
dê luz verde ao sinal vermelho.

Segredo(s)

Imagem tirada daqui


























Há vielas secretas,
ou segredos tão só nossos,
que não devemos desvendá-los
sequer a nós próprios,
sob pena de cairmos
no limbo do labirinto afectivo.
E depois da queda,
nem a morte nos encontra,
nem a morte nos leva.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O mundo dos “Se’s” e dos “Quase´s”

Imagem tirada daqui
O “Se” e o “Quase” são duas palavras distintas, que enquanto matéria substantiva tentam atingir a unidade de medida do tempo e do espaço, respectivamente, a meu ver, sem grande sucesso. Elas flutuam no vácuo do abismo entre a dimensão sensorial e o universo de todas a impossibilidades só ali possíveis. Ora é lá, no mundo dos Se´s e dos Quase’s que brota a nascente da poesia mais bonita e genuína. É lá, no mundo dos Se´s e dos Quase’s que o sonho presenteia o ventre do corpo com asas de borboleta e o ser levanta voo em direcção ao céu, qual limite infinito residente dentro da mente (in)consciente.
Resumindo e baralhando, gosto muito de poesia e do mundo fantástico ou fantasioso onde ela se movimenta que nem um polvo no seu habitat natural, agora, Já não gosto de sentir os tentáculos pegajosos dos Se’s e dos Quase’s na corrente sanguínea do meu dia-a-dia. Gosto de poesia, gosto de encher as medidas da alma, gosto de sentir o tesão da paixão à flor da pele e levantar voo de seguida, mas antes disso, antes de ser consumida pelo vício da espectativa, preciso de saber defender bem a minha baliza, preciso de conhecer bem a medida do meu tempo e do meu espaço, e, acima de tudo preciso de ter mão precisa no trajecto do meu caminho. Portanto, viagens ao mundo dos Se’s e dos Quase’s, só com cinto, de alta segurança.

sábado, 16 de julho de 2016

Coração ao Largo

Marco Britto, em Photography by Fivehundredpx

Errar é humano, literalmente falando. E, tal acto ou acção é inata à condição humana, passo a redundância da expressão. Eu diria mesmo, que o erro é uma alavanca manca através da qual podemos tirar proveito de ensinamentos com vista a corrigir-mo-nos e a aperfeiçoar-mo-nos perante nós e perante os outros.

Ultimamente, tenho viajado muito dentro de mim, e de mim para mim, em busca do caminho certo para levar a bom porto a última etapa de uma jornada que tem sido longa, delicada e complicada.
O tempo no tempo é implacável quando o nosso tempo já vai para além da metade. É imperativo que dê da perna para me desembaraçar do que me pesa, do que me farda e do que me inquina a franca mobilidade, despenalizando o peso da consciência para outra instância. O  meu tempo é cada vez mais precioso, para me dar ao luxo de o desperdiçar. 
Está a olho visto, qual o meu próximo desafio afectivo; decidir racionalmente de facto e de direito a causa e o efeito, e agir a frio de coração ao largo, em espera calculada pelo repostar do outro lado, caso seja encetado.
O tempo e a experiência ensinaram-me a ver um pouco mais além, e a agir preventivamente, mas também me têm advertido que não sou imensa, que não consigo abarcar nem resolver todos os problemas em simultâneo, muito menos os de hoje e os de amanhã ao mesmo tempo, e, a vida não se compadece com o marasmo, nem com o deixa andar, nem com a falta de firmeza de decisão no momento exacto.   
Esta na hora de agir com precisão e de costas voltadas ao medo de cometer erros, e de prosseguir caminho por locais salubres e bem iluminados, de corpo leve, mente arejada e com o interruptor afectivo muito bem desligado; se bem que, preferiria mil vezes, calcorrear ruas antigas, estreitas e escuras, iluminadas por candeeiros obsoletos enluvados por teias de aranha. 

sábado, 2 de julho de 2016

Da Memória Intermitente

NOELL S. OSZVALD

O filamento incandescente da memória tem vindo a padecer de hiatos de intermitência entre as terras saudade e as terras do esquecimento. A ampulheta da cegueira partiu-se no meio do recheio do sótão desarrumado, deixando espalhados ao acaso os estilhaços do tempo da espera.
O fio do tempo desatou o nó da clausura, implodindo a cadeira vazia quase em estado de asfixia. Não lhe apetece escrever, não lhe apetece arrumar os cacos, não lhe apetece (re)lembrar, até porque isso implicaria repovoar a dor da saudade, mas também tem medo de esquecer e de cair no esquecimento, e a escuridão permanente está mesmo ali, na iminência de se instalar definitivamente.
À cautela, resta-lhe desligar o interruptor e acender uma vela no parapeito interior da janela, e, mais uma vez sabe que vai esperar que o destino fatídico se cumpra até à queda do último pingo de cera.

domingo, 5 de junho de 2016

Vanilla Dreams

Fotografia de M. Inês Louçano
I'm in heaven, 
lying on cotton candy clouds 
tasting vanilla dreams;
So, do me a favor, 
don’t wake me up!




The Game 

Come, let us play a game, little boy,
To while the world away.
What shall be – tell me – our harmless toy?
At what shall we play?

Shall we play – shall we? – at being great?
No, nor at being grand.
Shall we believe that we are Fate
And make up lives out sand?

No, little boy, we will play that we are
Happy, and that we are gay;
Let us pretend we are dreams, very far
From the world in which we play.

*Alexander Search
January 2nd. 1908


***
(TRAD.)

O Jogo

Anda, rapaz, deixa o mundo real,
Vamos jogar um jogo.
O que será – diz lá – brincadeira sem mal?
A que jogamos logo?

Vamos brincar - que tal – a quem é o mais forte?
Não, nem ao mais valente
Fingimos que somos a Sorte
E do pó fazemos gente?

Não, rapaz, afinal jogamos antes
A tão contentes que estamos;
Fingimos que somos sonhos, distantes
Deste mundo em que brincamos.

*Alexander Search
2 de Janeiro de 1908


*um dos 136 autores fictícios de Fernando Pessoa 
Poema extraído da edição de Jerónimo Pizarro e Patrício Ferrari - Tinta da China

Eu sou uma antologia
136 autores fictícios 
Fernando Pessoa

*Alexander Search, a mais prolífera figura literária do universo pessoano antes do mês «triunfal» de Março de 1914. Terá nascido em Lisboa a 13 de Junho de 1988, isto é na mesma cidade e na mesma cidade que Fernando Pessoa. Terá surgido na mente de Pessoa em 1906, ano em que começa a herdar os poemas antes atribuídos a Charles Robert Anon.(…)
«A Search» ou «Alex. Search», como assina alguns textos, foi uma figura poliglota, essencialmente activa entre 1906 e 1911. Porem o seu nome cionsta ainda de um plano literário de 1914, as suas iniciais surgem num cabeçalho de uma entrevista a *Alberto Caeiro – redigida em português e realizada e Espanha, onde esteve Search – , e é, uma vez mais, citando num plano editorial tardio, posterior a 1932.

terça-feira, 31 de maio de 2016

para lá da porta cor-de-rosa

Imagem fornecida por Castiel


























Ela vive dentro de um compartimento imenso para lá da porta cor-de-rosa, cuja chave só encasa na relíquia esculpida em latão pelo lado de fora da mão.
Ela vive dentro daquele denso compartimento com o segredo da chave em seu poder, mas sabe que o poder de a fazer rodar ainda não o pode exercer; É lá dentro que reside a responsabilidade da vida que gira em torno de si. Não é uma ilha isolada no meio do nada, ainda é um Porto de Abrigo, mesmo quando sente muitas vezes um desejo enorme de ser um grito.
Assim vive todos os dias dentro do compartimento, sempre de olhos postos nos ponteiros do tempo. E tem medo. Tem muito medo de quando exercer o poder de soltar a roda da chave, já não lhe restar tempo de qualidade para concretizar o que mais deseja e o que ainda lhe falta fazer, viver o seu Grande Amor por África.



***

“Parabéns mais uma vez mãe.
Sei que ultimamente tens andado muito stressada e cansada, e eu, e a Bia não temos ajudado...
Este é o teu dia, e quero quando chegar a casa, e o resto da noite, ver-te bem-disposta com esse sorriso lindo que tu tens no rosto. Apesar de tudo, agradeço-te por seres quem és (tanto como mulher, tanto como mãe), tenho muito orgulho na pessoa que és.
Palavras não descrevem o quanto eu te valorizo e te amo.
Palavras não conseguem agradecer tudo aquilo que fizeste, fazes e irás fazer por mim e naquilo que me ajudaste a ser!
Vamos fazer este dia valer a pena, mesmo que sejamos só as três.
Amo-te muito mãe!❤”

SMS enviada pela minha M. Inês

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Desenho feito pela minha M. Beatriz

Reparem só no pormenor das quatros trepadeira que vivem dentro do compartimento (I, J, B, S)

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E o mimo manipulado digitalmente pela minha outra parte, J. Louçano


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E é por estes motivos e por mais um outro, que me dá sempre um sorriso rasgado quando me vê, sem hoje ter tido a noção do dia que me era, que vale a pena viver dentro do compartimento que fica para lá da porta cor-de-rosa.