quinta-feira, 12 de maio de 2016

Inocências

Francesca Woodman
A inocência perdida 
é fodida,
debulha e tritura tudo quanto é expectativa!

domingo, 1 de maio de 2016

E porque hoje também se grita a palavra Mãe!

O que posso dizer hoje sobre a minha mãe?!
Eu era a sua única filha, não éramos muito próximas, entre nós sempre houveram grandes conflitos de personalidade. Ela era uma mulher lindíssima, mas o que tinha de rara beleza, também o tinha em dose excessiva de austeridade militarista. Não era de sorriso fácil, nem oferecia grandes manifestações de amor e carinho. Mas no que tocava a formação e educação era rígida e não deixava por mão alheia aquilo que só a ela lhe competia. Ensinou-me o significado da liberdade e da consequente maior responsabilidade, assim como me empurrou para a aprendizagem compulsiva de que a vida tem que ser conquistada a pulso de trabalho e muita dedicação. Os meus pais sempre foram pessoas de posses, mas o supérfluo nunca me foi dado de mão beijada. Se o queria, tinha que o conquistar, deitando mão ao trabalho para o conseguir adquirir. Naquela altura, aquela postura de dureza crua feria-me profundamente. Recusava-me a concebê-la no meu entendimento. No entanto, hoje, só tenho que lhe agradecer tal rigidez de conduta. Formei-me, construí-me e constituí família à custa de muito trabalho, de muito esforço e de muita dedicação. Não devo nada a ninguém é um facto, mas sou de igual forma uma mulher de sorriso pouco fácil, herança antiga do matriarcado. Nem tudo nesta vida que dá fruto, se faz brotar rosa sem espinhos.
No tempo, herdei este legado de raiz sólida, que faço hoje por transmitir às minhas duas filhas, com alguns ajustamentos, obviamente; menos dose de austeridade, e mais algum do meu sorriso espontâneo ;)
Acho que é esse o papel de mãe, ensinar os filhos a trabalhar e a fertilizar a terra com vista a colher bons frutos. Eles nascem de nós, mas não são nossos, pertencem ao mundo.

sábado, 30 de abril de 2016

Deserto, a beleza camuflada

Kasia Derwinska - Antidotum

O deserto é um mundo imenso cheio de vazio dentro. Tem horas do dia que o céu se confunde com a areia, iludindo o horizonte do olhar com a imagem do mar, e, à noite, a plenitude do universo galáctico está mesmo ali, ao alcance da mão.
Aquela beleza estonteante, camuflada de perigo, exala mistério e desperta grande curiosidade ao “inimigo”. Há quem se atreva ao desafio da sua descoberta, testando a sua capacidade de resistência. Já os mais “acanhados” preferem esconder a falta de coragem, enfiando a cabeça na areia.
Pois é, o abismo é o copo vazio mais cheio que conheço. Todos têm sede de o beber, mas nem todos tem audácia para o fazer.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Se não fosses tu, Miss Smile...

 Enzzo Barrena by Deviant Art - ENZZOK

O texto que entendi também aqui partilhar convosco aconteceu em sede de resposta à pergunta lançada por Miss Smile, Porque Escrevo? Ali, publicada originalmente.
Como tive oportunidade de lhe confidenciar em privado, esta questão foi de grande importância para mim. Obrigou-me a fazer uma viagem no tempo e a fazer o ponto de situação ao meu eu afectivo, levando-me de encontro à capacidade, há já algum tempo perdida, de olhar-me nos olhos de forma nua e crua sem ter medo de meter o dedo na ferida.
Concluí por fim, que escrever deixou de ser uma necessidade para mim. Hoje nada mais é que um registo avulso e escasso no tempo, com vista a perpetuar a memória da minha memória, para quando esta estiver falida. Mas se fizer uma análise, ainda mais crítica, admito que este gesto de investimento interior não deixa de ser de igual forma uma pretensa vaidade em me dar a conhecer a quem do outro lado me lê.

Com tudo isto, e por mais isto, por aqui, para já me fico, mas não fico sem deixar de desejar todo o meu bem-querer a Miss Smile.

Se não fosses tu, Miss Smile, o meu eu não se teria confrontado tão rápido.
Obrigada minha Amiga :)

***

Porque escrevo? Perguntas-me tu, Miss Smile.
O título da tua publicação que imputou esta pergunta poderia muito bem ser uma das minhas respostas, transferindo o sorriso como resultado de um registo escrito macerado. Mas essa realidade, hoje não é a minha verdade, acontece que a tua questão coloca-se hoje e agora, e hoje não te sei dizer o real motivo porque escrevo.
Se fizer uma análise retrospectiva e introspectiva sobre a questão, posso dizer-te que em tempo, não há muito tempo, mas há algum tempo escrevi muito num determinado registo. Fiz da escrita uma terapia afectiva, como quem procura a cura de toda a desventura na poltrona de uma consulta de psiquiatria.
Ao invés, a palavra assistiu-me como elemento medicinal cicatrizante. Quantas vezes, lambeu ela a minha ferida em tempo aberta, e outra tantas escoriações! Posso dizer-te que foi nos piores momentos da minha vida, de dor e de agonia que brotaram os meus escritos mais bonitos. Hoje, a ferida está cicatrizada e a sua marca permanece escarificada no corpo da minha alma. Não tenho saudades nenhumas desses momentos, longe de mim os quero. Agora tenho muitas saudades e sinto muita falta dos meus escritos mais bonitos. Olho para eles, e questiono-me de como fui capaz de conseguir tamanhas façanhas, algo de que hoje, não sou capaz.
A verdade é que cada vez mais, escrevo cada vez menos. A memória tem vindo a perder a capacidade de armazenar e de processar informação, e o tempo útil é canalizado de outra forma. E com isto te digo que a minha teia, a cada dia, está mais perto de deixar de ser tecida. Já muito vivi para o meio tempo de vida que já vivi, e já muito escrevi e já muito registei, mas redundância do meu sentir, remete-me hoje para o silêncio, sobe pena de não me querer ver como uma alma obsoleta, e de não me querer ouvir como um disco riscado perturbador.
Hoje, como te disse, não sei porque escrevo, o objectivo primeiro deixou de fazer sentido. Talvez escreva na tentativa de encontrar respostas a perguntas de rectórica; talvez procure atingir a paz no equilíbrio emocional e afectivo, ou talvez queira apenas deixar o meu registo escrito como prova de ter existido. Mas de uma coisa eu tenho a certeza, o meu escrito mais bonito, não será escrito, permanecerá imaculado no silêncio de uma folha de papel branca.
Eu, bem o tento, mas sei que um dia chegarei lá.


quarta-feira, 13 de abril de 2016

Da elasticidade da máquina afectiva

Olivia Bee, by Flickr
























Sabemos bem o que não deve ser feito.
Qual silêncio sobreposto,
qual grito aflito,
qual olhar imperfeito!
Coração que sente
não define conceito,
nem se exprime como mente.
A própria razão
desconhece a razão do seu próprio ente.
Coração que é alma de gente,
sempre se revela e sempre desmente
o que a palavra cala e não lhe consente.
E agora? Quando o consentimento da palavra
não lhe for bastante e suficiente?
Deixar-nos-emos esvair por entre os dedos,
na hora do acerto dos ponteiros,
anichando de forma assistida
ao conforto da cobardia?
Ou será que nos permitiremos enfrentar
como se alguém nos espetasse o dedo na ferida,
garantindo a coragem do ser grão
enquanto a vida nos respira?

sexta-feira, 1 de abril de 2016

* E caí no ópio como numa vala

Titulo: Opium Dreams. Part three
Fotógrafo: Olena Chernenko
Colecção: Vetta
A palavra tem a capacidade extraordinária de condução, indução e de expressão. Esboça contornos, enche os egos da alma e projecta expectativas viciantes na mente humana, como se de uma droga pesada se tratasse. Contudo, Maria “Papoula” tem um grande senão, o da não resolução da matéria em questão. Ainda que o seu efeito terapêutico seja de grande motivação e o seu efeito alucinogénio não tenha asas de limitação, no que respeita à matéria da matéria inteira, verifica-se que a falta de matéria deixa a matéria da matéria muito a desejar, e, toda a matéria que se quer corpo tangível por inteiro tem muita sede de gritar.
Pois será por conta do ópio, que a palavra se vê isolada para além da hora desejada, e, quando para além dela não existe mais nada, a alma esvazia e o corpo ressaca.

*Opiário
Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

segunda-feira, 28 de março de 2016

Para Castiel, com Amizade e Carinho

Imagem fornecida por Castiel

pétalas ao vento
sereia do rio
asas de anjo caído
casta fragilidade
embalada
pela triste lágrima
do doce violino

Trecho musical escolhido por Castiel

terça-feira, 22 de março de 2016

Escultura de Gente

Mercuro B. Cotto

Tenho o corpo
dormente.
Fez tanto frio
no tempo
que ele
já não me sente
a cabeça pesada,
a alma rasgada,
e o peito apertado
com vazios de nada.

Mas a minha mente,
mesmo (in)consciente,
denuncia
uma (es)cultura de gente
que se sente só
e carente.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Dos mantos a retalho à pele que há em mim

Mercuro B. Cotto























Dizem que as palavras falam.
Há quem diga que umas contam estórias,
outras rejubilam actos heróicos nos gritos da vitória,
e outras há, que calam histórias
no silêncio da memória.
Agora, tem dias que as minhas falas
são que nem um punhado de areia seca
sem fio de amarração.
Escorregam-se-me
por entre os dedos da mão
e caem por terra sem pé no chão.
Ainda assim, nos dias assim-assim,
lá me saltam algumas palavras da gaveta,
alinhavadas uma-a-uma,
nas entrelinhas da seda da minha teia.
E, os mantos a retalho lá se tecem,
ora doces, ora amargos
consoante os âmagos
que me despem.
Mas todos os modelos me vestem.
(mesmo os que se mostram
mais desajustados e fora de prazo).
Uns aconchegam-me
a palavra ao corpo da alma,
outros, no lugar do olhar, desenham-me
círculos com buracos vazios.
E mais há, aqueles modelitos mais coloridos,
que sobreaquecem o vício do desejo
por debaixo da pele;
que ora me desperta o travesseiro
do desassossego,
ora me confunde a rosa dos ventos.
Por fim, para além da pele que há em mim
ainda me sobrevive o rasto
de um rosto marcado pela desilusão,
qual armadura mascarada na palavra não (con)sentida.
A tal indumentária que me capa
o silêncio do grito agudo,
rasgado na ferida.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Da flor da paixão























Imagem tirada daqui

Sempre que a lua 
prenhe de ti
se vinha banhar à praia-mar,
conferia aquela nudez errante 
a imagem cénica 
de uma silhueta perfeita, 
esculpida nas ondas da areia.
Há quem diga que tal criatura 
se afigura figura fictícia
com olhar de mulher madura 
em semblante de menina.
Ficção ou talvez não,
quem a conhecia afirma, 
que a paixão 
todos os dias de lá vinha 
adormecer o dia no parapeito da noite
para namorar as estrelas.
Em boa verdade, 
quem bem a sentia
sabia que naquela vida 
não havia nenhuma outra janela 
que lhe concedesse 
tamanha alegria.
Agora, por acaso, alguém sabe 
quem se atreveu ao rubor 
que o seu corpo teceu?
Dizem que o segredo daquela flor
nenhum olhar alguma vez bebeu!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Palavra Autista

Jerry Uelsmann
























Ora aqui estou eu de fronte para uma folha de papel virtual imaculada a lançar-lhe aquele olhar de matadora, mas a miúda, mais teimosa que um jumento, ignora-me qualquer resposta. Só pode ser publicidade enganosa, esta história dos olhos serem o espelho da alma. Nesta mesma medida começo a duvidar da famosa teoria da brancura do algodão, que não engana. Caramba, como esta luta em busca da conectividade é inglória. Estaremos perante uma realidade turva que se mostra desajustada à visão semicerrada, que me dá sempre jeito para filtrar impurezas?! Ou estaremos perante uma realidade de paridade impraticável quando é claramente visível e evidente o princípio de equidade?! Podemos também estar numa realidade alienígena, que nos olha como se fossemos uns seres estranhos e aberrantes acabados de ser paridos da tendinha dos horrores! Ou então, estamos definitivamente numa realidade mundial onde impera a cegueira autista.
Ora de volta ao início, aqui permaneço eu, queda e serena (quase a bater no teclado) a tentar comunicar com a miúda interactiva, mas ela continua na sua com a sua brancura luminosa e teimosa sem me conceder a mínima expectativa. Agora o que me dá ganas não é a miúda, mas sim o que ela representa. A realidade do mundo acontece deste lado, do lado de fora da porta, onde estou eu, onde estás tu, onde estamos todos nós, que preferimos o conforto da palavra autista.
Agora para terminar, deixo-vos com mais umas palavrinhas gastas.

No silêncio de um olhar
dizem-se coisas maravilhosas
que as palavras
não têm capacidade de comportar.
As minhas estão gastas
e tu mundo,
lamentavelmente,
estás muito longe de mim...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Dos Instintos

Angela Buron
Raios-te-partam homem,
que te divertes a jogar os sentimentos
num tabuleiro de xadrez
como se de peças inanimadas
se tratassem.
O xeque-mate acontece,
não se compadece,
desconhecida é a sorte 
que se te tece.
De que te adianta ser,
um ser manipulador!
Já tu, felino, és bicho caçador.
Por norma traças o teu destino
pelo fio do instinto.
Ainda assim, emprestas-te 
independente,
somente a quem queres,
e a quem te sente verdadeiramente.
O respeito e a desconfiança,
são as regras de base,
que estabelecem as tuas zonas de conforto
e que definem as tua margens
de segurança.
O felino, esse bicho sozinho, 
só vira “bicho” e deita as garras de fora
quando ameaçado pelo perigo.
Já tu, homem,
ser vil e mesquinho,
por tudo e por coisa nenhuma
viras “bicho”.
E, pior que o bicho instintivo
só mesmo o bicho premeditado!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Da Palavra (In)Suficiente

Imagem tirada daqui

Admito que a palavra já não seja suficiente
para a alma que se quer gente.
Talvez tenha perdido a voz,
ou talvez se tenha perdido pelo caminho
no encalço da frequência da onda.
É impossível remar o vazio,
não há atrito de catapulta,
que permita combater a corrente do vício.
Perante a surdez do umbigo,
a palavra não carece de ser gasta
nem tão pouco de ser desperdiçada,
até porque,
o ruído engasgado do disco riscado
é por demais incomodativo 
ao ouvido mais “delicado”.
A palavra já não é suficiente
diz a gente que se entende boa gente.
E, quando não se basta,
a porta do Silêncio
é o Grito da morada mais acertada.