Título: The Broken Wall Fotógrafo: Olena Chernenko Colecção: E+
Ela sente-o rasgar em dor por dentro
no eco de qual grito
esganado e aflito.
Sabe que ele não tem coragem de a amar,
tão pouco tem coragem
de lhe pedir para se ir embora daquele lugar.
E no silêncio da noite,
noite após noite,
escuta o lamento daquele fado
em tormento.
Está na hora de partir
para que ele pare de se ferir.
Amanhã, ao raiar da aurora,
vai sair e bater a porta com toda a sua força,
consciente de que ele não vai reagir,
ou mesmo a vai impedir.
Sabe que aquela dor vai-lhe aliviar,
mas ficará uma outra, ainda maior no seu lugar.
Ela parte livre para lamber as feridas e renascer das cinzas, deixando-o ali acorrentado ao peso do medo e do arrependimento, onde permanecerá estagnado à mercê da sua sorte, abandonado.
Título: Woman in black dress standing next to a window
Fotógrafo: Roberts Birze
Colecção: Flickr
Maria Boneca limita-se ao seu espaço de conforto habitual totalmente desinteressada das movimentações que a rodeiam, das conversas que não são as dela e dos convívios da elite estereotipada.
Sempre muito reservada, só fala se lhe dirigem a palavra, tem-se como uma menina educada, mas sempre com uma imensa vontade de manter-se surda e calada.
Os tempos de exteriorização de pensamentos e sentires estão bem lá atrás no passado. O cansaço ainda lhe pesa na alma por não conseguir fazer-se entender, mesmo junto daqueles que lhe são seus na carne e no sangue.
Habituada à incompreensão e às constantes cobranças de convívio social dentro dos padrões estabelecidos como normais, oferece resistência e remete-se sempre que pode à sua própria companhia autista.
Mas curiosamente, todos os dias, à mesma hora, a meio da tarde faz uma pausa na rotina e vai até à janela que deita vistas sobre o claustro do convento de freiras. Aproveita para pousar os olhos sobre o jardim, os quatros ciprestes que definem o perímetro de quatro lados iguais e a fonte ao meio.
O pretexto primeiro, não é a janela nem aquela tela que muda de cor conforme a rotação das estações do ano. O que a move até à janela é a presença circunstancial de um pardal que de vez em quando vem banhar-se e beber na água da fonte. Não é um pardal castanho qualquer que lhe desperta a atenção. Mas aquele pardal em particular, robusto, atrevido, audaz, desconfiado que carrega o peso de uma lágrima negra desenhada nas penas da asa esquerda.
O mais engraçado, é que sendo ela dona da sua vontade, vê a sua vontade todos os dias hipotecada à rebeldia de uma ave que nasceu livre, e livre há de permanecer até morrer. Sente-se tocada pela liberdade e pela força da natureza que aquele ser lhe é, saudade imensa de mão atada à realidade.
E quando o pardal não lhe concede visita, Maria Boneca suspira. Aquela janela cheia de vida permanece dentro dela, triste e vazia.
Título: My Spirale World Fotógrafo: Elena Chernenko Colecção: Vetta
Aproxima-te, olha. Sorri-me. Diz-me algo simpático. Não deu? Tenta de novo. Reage, atreve um toque. Sussurra-me ao ouvido um verso bonito. Falha? Ensaia de novo. Desvenda o olhar. Não te custa nada, e a mim dá-me jeito a alma ao peito. Quanto ao resto do fado, parece um disco riscado. Não aguardes, ensaia o outro lado, e faz-te sentir se queres o tango bem dançado.
Tenho medo de ter perder no seio da multidão tamanha é a imensidão de gente que temos em volta e pelo nosso meio. Levanta os braços bem ao alto para eu te ver, agita a tua voz de trovão pare eu te ouvir, e deixa-te ficar aí quedo e sereno. Enquanto as correntes prosseguem caminho para poente, eu quero-te comigo desde a hora do sol nascente.
Sentada na cadeira de baloiço, herança de sua avó paterna, simplesmente se quer só, no embalo do tempo talhado na madeira maciça, a mesma dureza que lhe deu corpo à alma e lhe cristalizou o medo no olhar frio e vazio. Enquanto se deixa em espera, esconde-se da gente e do mundo remetendo-se ao grito do silêncio autista. Não ouve, não fala, não quer saber de nada, nem de ninguém, limitando-se ao gesto do balanço lento em defensivas programadas, de olhos postos na janela e na porta do seu recanto. Sabe e sente que está para breve o presente do tão esperado momento. A brisa passou-lhe pela janela e materializou o Senhor que permanece do lado de fora à espera da sua mão aberta. Sabe que após a batida da porta, lhe esperam uns vincos acentuados e uns quantos fios brancos a acrescentar ao seu olhar vidrado, e sabe também que nunca há-de perder o sereno, mesmo que ao abrir da porta, se veja Maria Boneca morta.
Os monstros, esses bichos medonhos paridos e criados dos nosso medos instalados, ganham corpo sobre a mente da gente, como tornados desenfreados. E vão conquistando terreno, destruindo ingenuidades, destruindo essências, matando sonhos e semeando charcos de casulos de aço sem cabeça.